Avaliação da Aprendizagem na Escola Contemporânea: Entre o Controle e a Humanização.
Por - Ivan Carlos Zampin: Professor Doutor, Pesquisador, Pedagogo, Graduado em Educação Especial, Docente no Ensino Superior e na Educação Básica, Gestor Escolar, Especialista em Gestão Pública, Especialista em Psicopedagogia Institucional.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2342324641763252
A avaliação da aprendizagem constitui um dos temas mais controversos da educação escolar, frequentemente associada a práticas de controle, classificação e punição. Historicamente, como observam autores críticos da pedagogia tradicional, a nota assumiu o papel de moeda simbólica que regula a relação do estudante com o conhecimento (LUCKESI, 2011). Em muitos contextos, aprender deixou de significar a construção significativa de saberes e passou a representar o cumprimento de uma exigência para alcançar determinado resultado numérico. Essa lógica, segundo Serra (2012), reforça uma perspectiva mercantilista da educação, na qual o esforço do estudante é convertido em pontos, como se o processo escolar operasse mediante contratos de troca.
A consequência dessa prática é evidente, ou seja, grande parcela dos estudantes aprende apenas o necessário para atingir a média, reduzindo a escolarização a uma corrida por aprovações. Esse comportamento, porém, não é falha individual, mas reflexo de um sistema avaliativo que desestimula a curiosidade, a autonomia e o pensamento crítico, valores fundamentais defendidos por Freire (1996). A avaliação tradicional, centrada na memorização e na reprodução de conteúdos descontextualizados, expressa a própria concepção pedagógica da escola, sendo assim, quando o ensino prioriza a “decoreba”, a avaliação inevitavelmente se torna um instrumento de cobrança mecânica.
Além disso, a prática de cálculo de médias revela um paradoxo ético, sendo que em seu percurso, um estudante que apresentou dificuldades, mas melhorou significativamente, continua sendo penalizado pelo seu desempenho inicial, como se o aprendizado não fosse um processo contínuo de superação e transformação. Essa lógica ignora a função diagnóstica e formativa da avaliação, destacada por Haydt (2002), que propõe a existência de modalidades com finalidades distintas, sendo elas: o diagnosticar, o acompanhar e o classificar. Contudo, na prática, muitas instituições concentram-se quase exclusivamente na função classificatória, privilegiando a dimensão burocrática da avaliação em detrimento da dimensão pedagógica.
A contradição se intensifica quando observamos que a escola, embora deva preparar o estudante para lidar com desafios do mundo real, frequentemente distorce a função das avaliações externas ao torná-las justificativa para práticas internas rígidas. A existência de vestibulares e processos seletivos, como ressalta Serra (2012), não deve servir de desculpa para reproduzir modelos punitivos, mas sim para fomentar estratégias de ensino que desenvolvam habilidades cognitivas superiores, como análise, interpretação e resolução de problemas.
Nesse cenário, a Psicopedagogia oferece uma possibilidade de ressignificação da avaliação ao propor práticas humanizadas e centradas no sujeito aprendente. Essa perspectiva compreende que aprender é um ato singular, que envolve dimensões cognitivas, emocionais e culturais (FERNÁNDEZ, 1994). Assim, a avaliação não pode se reduzir a uma medida quantitativa que ignora a complexidade da aprendizagem. A superação da lógica meritocrática exige a adoção de práticas que valorizem o progresso individual, respeitem os ritmos e modos de aprender e forneçam oportunidades constantes de melhoria.
A ideia de permitir que o estudante refaça avaliações até atingir domínio satisfatório é coerente com a concepção de avaliação como processo, e não como evento isolado. Luckesi (2011) afirma que avaliar deve ser um ato amoroso, direcionado à promoção do desenvolvimento, e não ao julgamento. Nesse sentido, oferecer múltiplas oportunidades, diversificar instrumentos e inserir situações reais nas atividades avaliativas torna o processo mais significativo e reduz a ansiedade escolar.
Outro componente fundamental é a autoavaliação. Freire (1996) destaca que a consciência crítica é condição indispensável à autonomia, e a autoavaliação propicia ao estudante reconhecer suas fragilidades, avanços e estratégias de aprendizagem. Esse recurso não é exclusivo do ensino superior, ou seja, pode e deve ser utilizado desde a Educação Infantil, ampliando a responsabilidade e o protagonismo do educando no processo.
A avaliação qualitativa, por sua vez, possibilita que o professor observe e registre aspectos subjetivos, como participação, criatividade, postura crítica e cooperação. Esses elementos, embora não quantificáveis, são essenciais à formação integral, como defendem Libâneo (2013) e outros estudiosos da pedagogia crítica. Relatórios, rubricas, descritores e registros narrativos podem complementar provas e testes, permitindo uma visão mais ampla do percurso formativo.
Neste contexto, a superação das práticas classificatórias tradicionais exige uma mudança de paradigma, ou seja, a avaliação deve deixar de ser instrumento de poder para se tornar ferramenta de aprendizagem. Isso implica abandonar a lógica da punição e adotar uma postura ética e dialógica, na qual o professor, enquanto mediador, acompanha, orienta e intervém continuamente. A escola que assume esse compromisso passa a reconhecer o estudante não como receptor passivo de conteúdos, mas como sujeito ativo, produtor de sentidos e de conhecimento.
Evidencia-se então, que a avaliação humanizada não se trata de suavizar exigências, no entanto, sim, de garantir justiça pedagógica. Avaliar de forma crítica e responsável implica promover condições para que todos aprendam, entendendo que o ensino só cumpre sua função social quando possibilita o desenvolvimento pleno. A Psicopedagogia, ao enfatizar a complexidade do aprender, oferece caminhos potentes para que a avaliação assuma um caráter inclusivo, emancipador e comprometido com a dignidade humana.
Referências Bibliográficas.
FERNÁNDEZ, A. A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
HAYDT, R. C. C. Avaliação do processo ensino-aprendizagem. São Paulo: Ática, 2002.
LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 2013.
LUCKESI, C. C. Avaliação da Aprendizagem Escolar. São Paulo: Cortez, 2011.
SERRA, A. B. Psicopedagogia Institucional: reflexões e práticas. São Paulo: Ática, 2012.