18/09/2007

Aulas de ecologia não bastam para salvar o mundo

Por Cássia Gisele Ribeiro, do Aprendiz

"As pessoas enchem congressos de uma semana para divagar sobre ser um líder, sobre enriquecer de forma individualista, sobre subordinar as pessoas. Enquanto isso, é tão difícil encher um congresso para falar sobre um mundo melhor". A afirmação, feita pelo professor do doutorado em Ambiente e Sociedade da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Carlos Rodrigues Brandão, marcou a mesa-redonda Educar para a Sustentabilidade do Planeta, que abriu o Fórum Mundial de Educação do Alto Tietê, que acontece na cidade de Mogi das Cruzes (SP).

A necessidade de mudança de comportamento das pessoas para garantir a sustentabilidade global pautou praticamente todas as considerações feitas durante o debate. "É nesse movimento que entra o papel da escola. Não basta dar aulas sobre ecologia e reciclagem de lixo se não se educar para a coletividade", disse o professor da Universidade de São Paulo (USP), Moacir Gadotti, que completou a mesa.

Segundo o Gadotti, sustentabilidade é um conceito muito amplo, mas que se resume a ações muito simples. A educação ambiental é uma delas, mas não podemos nos concentrar apenas nas crianças. "Mais do que nunca, o mundo adulto precisa de educação ambiental", destacou.

"Atualmente virou moda falar em sustentabilidade. A mídia prega a sustentabilidade, as grandes empresas falam em responsabilidade ambiental. Falar sobre o tema ficou bonito. 'Pega bem' para a empresa usar papel reciclado em suas correspondências. Mas isso é muito pouco", criticou. "A responsabilidade ambiental é inviável em um mundo que tem toda a sua estrutura baseada em um modelo capitalista, onde todas as regras são ditadas pelo consumo", disse.

O pesquisador apresentou dados de pesquisas que refletem essa realidade. "Se todas as pessoas do planeta tivessem um padrão de vida similar ao de um cidadão norte-americano de classe média, precisaríamos de três planetas do tamanho da Terra", disse. Além disso, Gadotti mostrou que se todas as famílias do mundo possuíssem carro, teríamos dois bilhões a mais de automóveis.

"A sociedade continua pensando em alternativas. Na verdade, precisamos é de uma mudança no sistema social", disse. "Não dá para pensar em sustentabilidade quando a sociedade faz todas as pessoas acreditarem que precisam consumir para serem felizes", diz.

Segundo Gadotti, educar significa mudar a visão de mundo e o modo de vida capitalista. Precisamos educar para que as crianças não tomem essa lógica de consumo como única possível.

Brandão completou: "a sociedade precisa trabalhar para produzir bens comuns com respeito ao meio ambiente. Embora a produção esteja voltada para o enriquecimento de alguns, o mundo está acabando para todos", disse.

Gadotti ressaltou que sabe que as barreiras para se alcançar um outro modelo de sociedade ainda são imensas. Mas lembrou: "Estamos aqui para pensar em outro mundo possível, e para isso, precisamos sonhar. O que eu desejo para o mundo não é um regime socialista, comunista ou anarquista. O que eu desejo ainda não tem nome", disse, citando a célebre frase da escritora Clarice Lispector.
(Envolverde/Aprendiz)

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