02/12/2005

Aulas com pitadas de empreendedorismo

Ensinar o professor a criar um ambiente favorável ao estímulo do potencial empreendedor dos alunos é o grande desafio das universidades.

Será que é possível ensinar empreendedorismo? Segundo professores entrevistados pelo Universia, o espírito empreendedor é algo inerente ao ser humano, o importante é estimulá-lo. Além disso, vale lembrar que vivemos em um país em que a cultura empreendedora é pouco difundida, nossas escolas e universidades ensinam os estudantes a serem empregados, não empregadores. É aí que a motivação para o empreendedorismo deve entrar.

O senso comum prega que o empreendedorismo deve constar da grade curricular de cursos como Administração de Empresas e Engenharias, já que são daí que saem os futuros donos de negócio, em geral. O professor de MBA da Fundação Dom Cabral, Fernando Dolabela, que ministra o seminário Oficina do Empreendedor para professores, acredita que não é bem assim.

"O objetivo do meu trabalho é fazer com que os cursos insiram em seus programas o ensino de empreendedorismo. A proposta é que qualquer curso tenha conteúdo empreendedor e ofereça aos alunos o desenvolvimento da sua capacidade empreendedora", afirma Dolabela. Cerca de 4.500 professores já passaram por esse seminário e aplicam a metodologia em mais de 500 instituições de ensino superior brasileiras.

Sociologia, Jornalismo, Medicina, Letras, Música, Turismo, Relações Públicas, Biologia... Qualquer curso pode e deve adotar disciplinas de empreendedorismo. É isso que fez a UnB (Universidade de Brasília), criando a Escola de Empreendedores, ligada ao CDT (Centro de Desenvolvimento Tecnológico), que dá a todos os alunos da instituição a oportunidade de fazer duas matérias: Introdução à Atividade Empresarial; e Empreendimento em Informática.

"É uma questão de motivar o estudante através de atividades mais práticas do que teóricas, desmistificando, inclusive, o negócio de ter um negócio. Das dificuldades, alertando tanto a parte legal quanto a parte de estruturação, de como bem estruturar um negócio", explica o diretor do CDT, Luís Afonso Bermúdez.

O professor Dolabela se recusa a usar a palavra ensinar no sentido de transferir conhecimento. "Ensinar é mais do que isso, não é possível transferir conhecimento empreendedor, como é possível se fazer com Geografia ou História. Empreendedorismo não é um tema cognitivo. Diz respeito à cultura, valores, crenças e forma de ser. Aprende-se a ser empreendedor através da convivência com pessoas que sinalizam positivamente para os valores empreendedores, como criatividade, inovação, rebeldia, autonomia, independência, auto-suficiência, enfim, de protagonismo. São esses valores que devem ser desenvolvidos", ressalta.

Há algo fundamental que nos diz o seguinte: todos nós nascemos com potencial empreendedor. Nesse contexto, educar na área empreendedora é desenvolver algo que já existe. Educação empreendedora é justamente isso, tornar útil e dinâmico um potencial já existente. Portanto, podemos concluir que o empreendedor não é alguém diferente, afinal, todos nós temos o espírito para os negócios, é apenas uma pessoa que teve o seu potencial estimulado de alguma maneira.

Ambiente e sala de aula

"Acredito que todos nós temos características empreendedoras e que podem, ao longo da nossa educação, serem reforçadas ou inibidas." Isso é o que destaca o professor e coordenador do Núcleo de Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral, Afonso Cozzi. O ambiente em que vivemos e as pessoas com as quais convivemos influenciam, e muito, o despertar da capacidade empreendedora.

Muitos deixam de ser empreendedores em virtude da escola e família, que são dois obstáculos sérios ao desenvolvimento desse potencial. Os professores universitários são importantes nesse aspecto: ter uma atitude empreendedora e passá-la aos alunos é fundamental. "O processo é muito mais preparar o professor para transformar a sala de aula em um ambiente de geração de conhecimento. O papel do professor é organizar esse ambiente e trazer insumos externos e fazer com que os alunos aprendam com empreendedores reais. O professor cede o seu lugar de mestre para quem empreende", comenta Dolabela.

Para Bermúdez, da UnB, a atitude empreendedora pode ser incentivada e fomentada, porque todos nascemos com vontade de fazer uma coisa diferente ou própria. A questão é jogar a semente em um terreno fértil: "Aquela idéia de que todo empreendedor nasce feito, não é assim, não. As experiências tanto nacionais quanto internacionais mostram que se você dá o ambiente propício, condições e ferramentas, é possível ter bons e grandes empreendimentos".

É na sala de aula que esse estímulo acontece. Além do professor inserir em sua disciplina, principalmente nas áreas tecnológicas, a matéria específica, é muito válido dar exemplos do que acontece fora dos muros da universidade. Convidar pessoas de áreas-chave, como plano de negócios, marketing, divulgação, inovação, é uma excelente idéia. E, como não poderia deixar de ser, promover a interatividade entre os alunos.

"O nosso ensino tradicional mais inibe do que incentiva, porque tem uma ênfase no conteúdo e tem a resposta no professor, enquanto que o empreendedor é muito mais voltado ao auto-aprendizado. Parece um jogo de palavras: o empreendedorismo pode ser aprendido, mas é difícil de ser ensinado. O professor entra na sala e cria um processo de aprendizagem em que o centro é o aluno", opina Cozzi.

Para Cozzi, o ponto crucial é o aluno se auto-conhecer, uma das habilidades do empreendedor. Depois, é interessante desenvolver a criatividade e visão de novas oportunidades, o que também as escolas não enfatizam muito. "Esse é o caminho para o professor, não precisa mudar o conteúdo do que ele dá, só precisa usar uma metodologia que privilegie o auto-aprendizado", observa.

Diversas instituições já oferecem disciplinas dedicadas ao estímulo do empreendedorismo, mas só isso não basta. O objetivo maior é a mudança cultural de toda a universidade. Inserir a cultura empreendedora no ambiente acadêmico é algo que já está sendo alcançado, já que, segundo o professor Dolabela, empreender significa conceber o futuro e transformar essa concepção em realidade.

Assine

Assine gratuitamente nossa revista e receba por email as novidades semanais.

×
Assine

Está com alguma dúvida? Quer fazer alguma sugestão para nós? Então, fale conosco pelo formulário abaixo.

×