Assentamentos da reforma agrária viram salas de aula
Projetos de Assentamento (PA's) tornaram-se mais do que um espaço de produção dos assentados da reforma agrária. Viraram salas de aula. De crianças do Ensino Fundamental a professores universitários, nacionais e estrangeiros, estão descobrindo nos PA's locais propícios para desenvolver suas atividades educacionais.
Na sexta-feira (11) o PA Zumbi dos Palmares, localizado nos municípios de Campos dos Goytacazes e São Francisco de Itabapoana, no norte do Rio de Janeiro, recebeu o professor norte-americano Walter Petry, da Fairfield University, do estado de Connecticut, nos Estados Unidos, e alunos de pós-graduação. O professor-emérito é especialista em estudos latino-americanos. Nesta sua primeira visita ao Brasil, pretende ter contato com uma experiência real de reforma agrária.
O convite para conhecer o PA Zumbi dos Palmares partiu do professor Marcos Antônio Pedlowski, que pesquisa o tema da reforma agrária no Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Criado em 1997 pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a partir da desapropriação da antiga Usina São João, o PA assentou 523 famílias em uma área de 8,5 mil hectares.
Pedlowski desenvolve desde 1991 estudos relacionados à vida dos agricultores familiares. “Os assentados nunca se negam a falar conosco, mesmo nos casos mais críticos. O tempo natural dessas pessoas é mais prolongado que o nosso, assim elas passam todo o tempo necessário conosco, sem nunca olhar o relógio, como nós fazemos”, observa o professor. Prova dessa receptividade são também os presentes ao final das visitas. “Sempre voltamos para casa com produtos deles: mandioca, abacaxi, milho”, ele diz.
Experiência no Acre
Já no Acre, o PA Nova Bonal, modelo de assentamento da reforma agrária adequado à região Amazônica, recebeu no último mês a visita de participantes do XIV Encontro Nacional de Geógrafos. O tema do evento, A Geografia e a Amazônia no Contexto Latino-americano: Diálogos, Práticas e Percursos, justifica a curiosidade dos profissionais dessa área, interessados em conhecer o processo de construção e execução de projetos de desenvolvimento sustentável.
Nas visitas, os representantes da comunidade contam um pouco sobre a vida no assentamento, o convívio social e a sua organização econômica – o processo de agroindustrialização e a organização da cooperativa. O PA Nova Bonal abrange quase 11 mil hectares, no quilômetro 75 da BR-364, rodovia que liga Rio Branco (AC) a Porto Velho (RO). O assentamento, criado em 2005, foi planejado de forma a respeitar o ecossistema, com a preservação de reservas de matas primárias.
Da área total do Bonal, cerca de oito mil hectares foram destinados para o manejo florestal de uso múltiplo, sendo que a área restante destaca-se pelo uso consorciado de seringal de cultivo com o plantio de pupunheiras. A extração da seringa de maneira ambientalmente sustentável possibilita aos assentados a produção de 25 toneladas de látex por mês. O projeto também conta com uma agroindústria para beneficiamento do palmito em conserva, com capacidade produtiva de 30 toneladas do produto drenado por mês.
Disciplina de Direito Agrário
A reforma agrária como aprendizagem não interessa apenas a geógrafos e agrônomos. No Mato Grosso do Sul, acadêmicos do 4º ano de Direito do Centro Universitário da Grande Dourados (Unigran) conheceram o PA Corona, no município de Ponta Porã, a 60 quilômetros de Dourados. Os estudantes foram até o local pesquisar como as 58 famílias de agricultores familiares se organizaram e estão vivendo após oito anos da implantação do assentamento.
Segundo o professor Robson Moraes dos Santos, da disciplina de Direito Agrário, a idéia é mostrar aos alunos a aplicação prática dos princípios constitucionais de garantia de acesso à terra. A iniciativa insere-se no projeto Direito à Propriedade: Do Sonho à Realidade, cuja proposta é dar vivência ao conhecimento teórico das leis, a fim de sensibilizar os participantes para os aspectos humanos e sociais que cercam a questão fundiária.
Educação ambiental
No Pará, foram os pequenos que aprenderam com o tema. A 1ª Trilha Ecológica, promovida pela organização Amazon Rural, em Marabá, reuniu estudantes de 3ª a 8ª série do Ensino Fundamental do Assentamento Piquiá para atividades de educação ambiental. As crianças e adolescentes assistiram palestra sobre tipos de lixo e sistemas agroflorestais, além de aprender noções de identificação de espécies nativas e alimentação do peixe tambaqui, criado em cativeiro.
Os estudantes visitaram o lote do assentado Antônio de Souza e ficaram surpresos com a diversidade natural que conheceram. “Aprendemos sobre o impacto ambiental, sobre a castanha-do-pará e como ela é utilizada fora do País. Conheci ainda o piquiá, uma árvore frutífera que cresce quase um metro a cada ano”, conta a aluna da 6ª série Jusciane Souza Matos.
Estudos de campo
Assentamentos rurais localizados em Canindé, Itapipoca, Monsenhor Tabosa e Crateús, no Ceará, são alvos dos estudos de campo dos alunos do Curso de Especialização em Agricultura Familiar Camponesa e Educação do Campo. A pós-graduação é desenvolvida pelas universidades Federal do Ceará, Federal do Piauí e Federal Rural do Semi-Árido (RN). Os coordenadores do curso defendem que o espaço rural seja percebido com outros olhos: deixe de ser visto apenas como um local de produção agrícola e seja considerado um espaço produtor de vida e de relações sociais.
Legenda: Alunos do Pará reuniram-se na 1ª Trilha Ecológica, no Assentamento Piquiá, para atividades de educação ambiental
Arquivo: Arquivo Incra