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Por Mario Osava *, da IPS
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Rio de Janeiro, 04/09/2009 – Um imenso laboratório, fragmentado em organizações dispersas pelo Brasil, a maioria não-governamentais, desenvolve técnicas sociais e novos conceitos que objetivam a construção de uma sociedade de pessoas mais sensíveis e aptas para aprender. Balé e danças populares, música erudita e popular, teatro, circo, capoeira, moda, artes visuais e audiovisuais, as linguagens mais diversas são ferramentas de projetos que nasceram com diferentes propósitos, mas que convergem em aspectos educacionais e sociais, ao se dedicarem preferencialmente à infância pobre deste País de 190 milhões de habitantes.
O ensino vigente, baseado apenas na razão iluminista e estruturada para servir à sociedade industrial, já não atende aos desafios atuais, especialmente as inquietudes dos jovens, afirma a Escola de Dança e Integração Social para a Infância e Adolescência (Edisca). Por isso a sua proposta é uma “Educação Interdimensional”, que combina com equilíbrio as dimensões do pensamento, o sentimento, o desejo e a transcendência, correspondentes aos princípios gregos logos, pathos, eros e mythus. A arte, a dança, neste caso, ocupa um lugar central nesta pedagogia, porque “dialoga com dessas distintas dimensões do ser humano integral”, explica Madeline Fontoura, psicóloga educacional que trabalha na Edisca desde 2001.
Esta organização não-governamental sistematizou em 2004 sua experiência até então de 13 anos no livro Edisca-A arte na construção do humano, no qual identifica “a crise de uma época” e do domínio da razão, qualificada como analítica-instrumental, pois fragmenta o conhecimento e serve de instrumento ao poder e ao progresso. A “Pedagogia do desejo”, do projeto Axé, e a “Pedagogia da Roda”, do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), são formulas nas quais se destacam a estética, a ética e o prazer no aprendizado. “A arte é educação” em si mesma, e muito melhor quando não empregada como simples acessório submetido a fins escolares, concluem.
Criatividade “A arte desafia as pessoas a buscar distintas respostas para um mesmo problema, estimulando olhares e pensamentos divergentes”, ao contrário do ensino formal, que impõe uma “convergência para a solução unida”, afirma Idelli Nichele, coordenadora do Polo Regional do Projeto Guri em Jundiaí, próximo à São Paulo. Propor soluções alternativas na escola significa equivocar-se e desviar-se da única resposta correta, em um processo que mata a criatividade.
“O pensamento único não é pensamento” nem reflexão, mas reprodução de idéias, acrescenta a pedagoga e ex-diretora “desencantada” com as escolas convencionais. A música é uma comprovada ferramenta do raciocínio lógico, mas fomenta a busca de variações, uma atividade em que o “jazz é fantástico”, conclui Nichele, que também deu aulas de educação artística na universidade.
O resultado é a criatividade, cada vez mais importante na economia e na vida das pessoas, mas que o ensino formal tende a travar, pois promove a produção em série de técnicos e profissionais, tal como a indústria baseada na linha de montagem de Ford. Outra virtude da arte é que permite superar o crescente desinteresse que gera o ensino oficial, sobretudo entre os adolescentes.
Uma pesquisa recente da Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro, constatou que o desinteresse motivou em 2006 a evasão escolar de 40,3% dos jovens brasileiros entre 15 e 17 anos, com maior incidência nas zonas mais ricas, como São Paulo. Por outro lado, a necessidade de trabalhar, que se supunha ser a causa principal, acabou respondendo por apenas 27,1% das evasões. Isto contrasta com a adesão das crianças e adolescentes aos projetos que a IPS visitou para esta série de reportagens “Arte é a melhor educação”, uma adesão que em muitos casos é mais forte do que a fome, várias horas de ônibus ou longas caminhadas. “Aqui aprendemos mais do que na escola e de forma mais divertida”, foi o testemunho mais repetido. “O encanto da arte desperta o interesse e aguça os canais sensoriais, facilitando o aprendizado de qualquer coisa”, segundo a psicóloga da Edisca Madeline Fontoura.
A escola pública, por sua vez, destrói a autoestima e por fim a capacidade de aprender, gerando rejeição, acrescenta. Pitágoras, o menino pobre do coral de ARaçuaí que aos 11 anos não conhecia um piano, mas que se tornou pianista, tinha muita dificuldade com a matemática. Depois que o professor lhe mostrou as relações entre música e matemática “decolei”, afirmou. Educar para a vida, para o respeito aos outros, para aceitar as diferenças, a convivência harmoniosa, a paciência e o conhecimento do próprio potencial são outros efeitos das artes coletivas, como a música e a dança, segundo alunos e professores entrevistados.
Função educativa Estas iniciativas surgiram, em geral, com objetivos de inclusão ou resgate social, ou de prevenção à violência e à marginalização, embora alguns, com Axé e CPCD, tenham desde seu começo propósitos explícitos de reformar, mediante inovações, o ensino público. Vários fazem parte da Rede Latino-americana de Arte para a Transformação Social e da Rede Avina Arte e Transformação Social, nomes que evidenciam sua orientação. Todos consideram indispensável a escolaridade formal, apesar de suas duras críticas à baixa qualidade do ensino público neste País.
Por essa razão exigem dos participantes que assistam com freqüência ou retomem as aulas, como o Projeto Axé, que acolhe crianças em risco social que abandonaram a educação regular. Estas experiências cumprem a função de complementar as escolas oficiais, oferecendo atividades extracurriculares e, às vezes, reforço nas tarefas escolares. Seus alunos desfrutam, assim, de educação em tempo integral, um sonho há muito perseguido por educadores e gestores escolares, com experiências isoladas e descontinuadas principalmente por razões econômicas.
Política pública Reconhecer esse papel e incluir as iniciativas relevantes no orçamento e no sistema escolar seria uma forma de convertê-las em políticas publicas, uma ambição que têm várias organizações não-governamentais, com Axé, cujo fim é conseguir que seus métodos sejam assumidos pelo poder público e então extinguir-se. O Ministério da Cultura estabeleceu uma via para apoiar as iniciativas da sociedade civil. Trata-se de um processo seletivo, por meio de licitações, que reconhece às organizações relevantes como Pontos de Cultura e às quais destina pequenas somas durante três anos para potencializar suas atividades e interligá-las em uma rede nacional.
Porém, Axé e Edisca, referencias entre as ONGs que atuam em educação e artes, e muitas outras, enfrentam atualmente grave crise financeira devido à retirada de patrocínios importantes e pela valorização do real frente ao dólar, que desvaloriza as doações estrangeiras. Axé lançou uma campanha de captação de fundos de pessoas e empresas nacionais, incluindo pequenas e medias. “A sociedade tem de reconhecer os benefícios e apoiar a Axé”, diz Serguem Jessui da Silva, encarregado desse esforço financeiro.
O projeto é caro, quase R$ 4,5 milhões por ano, principalmente com gastos em transporte e alimentação oferecidos às crianças e adolescentes de diferentes bairros suburbanos de Salvador (BA), e pela necessidade de manter a qualidade de suas atividades artísticas, segundo Ená Benevides, coordenadora geral da Axé. Dispor de recursos do orçamento educacional público poderia fortalecer as organizações, mas o risco é “perder independência” e, sem garantias de uma contribuição estável, sofrer novas quedas abruptas de recursos, alerta Jessui da Silva, dizendo que “há dois anos não há contribuições estatais” para Axé.
Dora Andrade, fundadora e diretora da Edisca, também considera “perigoso colocar nossa sustentabilidade na dependência do governo”, e prefere buscar novas fontes de renda para superar as dificuldades atuais. As contribuições pessoais e a transmissão remunerada do conhecimento acumulado através do projeto Partilha são alternativas que já estão em marcha. A Edisca também pode profissionalizar seu corpo de baile, que realizou apresentações de sucesso, para conseguir dinheiro, assegurar os salários de seus bailarinos e “uma visibilidade que ajuda a atrair financiadores”, acrescenta a criadora do projeto.
Não se trata de descartar eventuais aportes do governo, mas depender totalmente do Estado seria uma atitude kamikaze, ressalta Dora Andrade. As organizações sociais já conquistaram legitimidade com os benefícios que prestam, agora se trata de conseguirem ser rentáveis para se manterem, acrescenta. No nordeste pernambucano, a fundação da Banda Sinfônica Meninos de São Caetano, um dos projetos musicais de sucesso que chegou a ser retratado em um filme, procura converter-se em escola técnica de capacitação profissional. O governo do Estado de Pernambuco prometeu dar esse passo há três anos, mas o processo está parado.
No Ministério da Educação já houve avanços no aporte de “saberes da comunidade” e nas atividades educacionais complementares das organizações, segundo Beatriz Azeredo, presidente do Centro de Estudos de Políticas Publicas e ex-diretora da área social do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “Não partimos do zero”, mas conferter a ação do terceiro setor, ou sociedade civil, em políticas publicas exige um movimento “de duas mãos”, uma convergência das distintas “lógicas” das organizações sociais e do poder público, que têm “demandas às vezes conflitivas”, afirmou.
As organizações não-governamentais querem recursos para o ensino de música ou dança, em busca da excelência e limitando o número de seus beneficiários a algumas centenas, disse Beatriz. Já as políticas públicas aspiram a universidade, uma escala infinitamente maior, quase sempre em detrimento da qualidade, o que ocorre no caso do estadual Projeto Guri que atende cerca de 40 mil crianças. Contudo, há “um cenário favorável”, o terceiro setor amadureceu muito e está pressionado pela crise econômica, mas será necessário um processo longo de negociações com o Ministério da Educação e os governos estaduais e municipais, prevê a funcionaria do BNDES. O resultado deveria ser “uma nova cultura de condução de políticas publicas” e a definição do “lugar das organizações sociais nessas políticas”, que não pode ser o de simples venda de serviços, concluiu.
* O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investigação Jornalística. A Fundação AVINA e a Casa Daros, parceira na categoria Arte e Sociedade, não são responsáveis pelos conceitos, opiniões e outros aspectos de seu conteúdo.
(Envolverde/IPS)
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