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Uma boa notícia para professores de história: leis e decretos de Curitiba dos séculos 19 e 20, que refletem cenários e costumes de diferentes épocas da história da cidade, estão sendo resgatados pelo Arquivo Público Municipal. O resgate é feito com o apoio de um cuidadoso e minucioso trabalho de preservação e conservação de publicações oficiais pela gerência do Arquivo Histórico.
É um trabalho permanente esse de guardar a informação histórica que realmente interessa. Essa garimpagem é feita por 30 Comissões de Avaliação entre todos os documentos produzidos nas Secretarias Municipais. "Só assim mesmo para darmos conta de milhões de documentos, pondo em prática normas técnicas adequadas", comenta Maria do Carmo Cattani, diretora do Arquivo Público Municipal.
A gerência do Arquivo Histórico já recolheu milhares de leis, decretos, portarias, alvarás de construção, que constituem o Fundo Legislação Municipal. Da Secretaria Municipal da Comunicação Social foram transferidos mais de 54 mil negativos de imagens (fotos e slides) sobre obras e eventos oficiais, no período de 1996 a 2004.
O Fundo da Casa do Pequeno Jornaleiro, entidade que não existe mais, é fonte de informação sobre o seu trabalho com a infância e a juventude em situação de risco entre a década de 30 e 2003. A Fundação de Ação Social também já encaminhou todo material sobre a Frei, instituição que a antecedeu e teve dois nomes: Fundação de Recuperação do Indigente e Fundação Rural de Educação e Integração.
O resgate desse acervo consome tempo e exige cuidados especiais, sob o olhar vigilante de Maria Isabel Borba Sóppa, chefe da Divisão de Preservação. Ela comanda um pequeno batalhão de funcionários, instalados em salas que lembram um consultório odontológico, a começar pelo kit para proteção individual que são obrigados a usar: toca e máscara cirúrgica ou com filtro, óculos de proteção e guarda-pó azul celeste.
Os funcionários fazem a triagem de um livro inteiro ou mesmo uma folha de papel, submetendo-os depois a técnicas que garantam sua longa sobrevida. Todo material que chega passa por um processo de higienização. Em muitos casos, a chamada estabilização é feita assim: os buraquinhos são "obturados" com cola e papel japonês. Usa-se também material odontológico para retirar dos documentos grampos enferrujados ou fita crepe que improvisa emenda em folhas rasgadas.
O número de materiais contaminados por ácaro, fungos ou traças é pequeno; o maior problema é de poluição, muitos documentos estão cheios de pó ou produzem um cheiro característico, forte. Papéis antigos (ao contrário dos de hoje, alcalinos) têm muita acidez, oxidam; os negativos têm cheiro de vinagre. "A equipe precisa estar devidamente protegida contra estes elementos agressivos, e precisamos proteger especialmente a massa documental. Tudo que faz mal à pele pode fazer mal ao documento", diz a chefe da divisão.
A preservação é um trabalho minucioso e demanda paciência e aplicação. Um livro pode exigir até seis meses de trabalho para sua recuperação; uma folha, um mês, dependendo do tipo de reparo exigido e qual o procedimento indicado. Nos casos de documentos muito rasgados, é preciso aplicar papel celulose com cola metilcelulose e água deionizada - que é reversível e não agride a documentação.
O que mais anima Maria Isabel é saber que até pouco tempo não havia tanto interesse em tratar o acervo de documentos com a importância que merece. "É bom saber que a mentalidade mudou. Hoje, os servidores estão mais conscientes que é muito melhor e mais barato preservar o documento, desde a hora de sua produção. Reparar custa muito mais caro", diz.
O Arquivo Público Municipal de Curitiba é definido como "muito jovem" pelo historiador Hugo Moura Tavares, comparado com o centenário Arquivo Público do Estado, por exemplo. Gerente do Arquivo Histórico, Tavares afirma que em curto espaço de tempo, quatro anos, "foi possível trabalhar muito e avançar bastante". Agora, o momento é de garantir a integridade dos originais investindo na digitalização do acervo. "Só depois da troca de suporte do papel para o digital será possível atender de forma muito mais rápida e eficiente as demandas dos pesquisadores acadêmicos ou amadores", afirma.
(Envolverde/Nota 10)
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