Ao meu querido mestre
Docentes se espelham em seus mestres para trilhar caminho profissional.
Pense rápido: qual é o nome da sua professora, a "tia", da primeira série? Talvez você não se recorde do nome, mas lembra muito bem de suas atitudes e até mesmo de suas características físicas, não é mesmo? É, o caminho dos estudos é longo: Ensino Infantil, Fundamental, Médio, Superior e, ás vezes, até o Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado... Lógico que é quase impossível saber o nome do batalhão de docentes que cruzaram a sua vida. Mas sempre tem aqueles, os grandes mestres, que passam e deixam marcas importantes no desempenho pessoal e profissional do aluno. E estes são difíceis de esquecer.
Um processo natural. Afinal, são, no mínimo, dez anos de encontros diários com estes profissionais. Foram eles, inclusive, que te ensinaram a ler, escrever, fazer contas e, querendo ou não, também ofereceram a base para a sua formação. E se não bastasse, ainda tem a influência que estes mestres exercem, involuntariamente, na vivência dos alunos. O conteúdo é, sim, um grande influenciador, mas não o único. A didática e a maneira como o educador se comporta em sala de aula também são fatores que despertam admirações dos alunos.
Segundo a psicóloga e coordenadora do Núcleo de Análise Comportamental da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Lídia Weber, a figura do professor é muito poderosa, porque está em uma posição hierarquicamente superior à do aluno, tornando-se referência. "Um modelo muito importante para o estudante, desde a pré-escola", afirma. Mas, para a professora, é no Ensino superior que esta influência é maior. "Muitos acreditam que os universitários são pessoas já formadas. Nada disso. É nesta fase que se escolhe o modelo profissional e o docente é o espelho mais próximo desta realidade", explica Lídia.
É importante ressaltar, no entanto, que nem sempre as influências são positivas. E o que vai determinar isto é a conduta do professor. Por isso, todo cuidado é pouco. Ainda mais que, geralmente, o que se fala em sala de aula é incorporado como "lei" pelos estudantes. "O papel do professor é ensinar bem aos seus alunos e permitir que eles sejam tão bons ou até melhores do que ele", aponta a psicóloga. "O grande mestre não dogmatiza, mas deixa que seus discípulos encontrem os seus próprios caminhos. Servir de inspiração e jamais um modelo para cópia", enfatiza Lídia.
Confira, abaixo, a história de professores que, inspirados por seus grandes mestres, decidiram investir na docência:
O mestre e seus ídolos
Quantos profissionais decidiram seguir a carreira da docência por admiração aos seus professores? É impossível saber, mas não é difícil encontrar depoimentos de docentes que se inspiraram em seus mestres. Um deles é o do professor de antropologia e pesquisador da UnB (Universidade de Brasília) Antonio Flávio Testa, que trilhou o seu caminho profissional na graduação a partir das aulas de Metodologia da Sociologia com Pedro Demo. "Antes disso já pensava em seguir a carreira acadêmica, mas foi a partir deste contato que tive certeza disso", relata.
Além da graduação, professor e aluno se reencontraram no mestrado e, ainda, no doutorado. Foram mais de cinco matérias e, no mínimo, três anos de convivência, sendo que o primeiro contato aconteceu em 1973. Mas a admiração de Testa, nada tem a ver com este tempo e com as disciplinas ministradas por Demo. O que chamou a atenção do antropólogo foi a conduta do docente em sala de aula. "Primeiro, a visão dele em relação à universidade e ao mercado de trabalho. Um embasamento técnico com a aplicação prática", pontua. "E mais, a capacidade de analise sociológica. Ensina seus alunos a fazerem reflexões, pensando em processos e em transformações."
A influência foi tão positiva que o procedimento, mais tarde, foi incorporado nas aulas de Testa. "Demo é especialista em metodologia científica. Desta forma procurei explorar ao máximo esta sua peculiaridade para aplicá-la no meu dia-a-dia", diz. Hoje, o antropólogo completa 33 anos na docência e dedica as suas conquistas e o seu sucesso profissional ao seu grande mestre, que, atualmente, é o seu colega de trabalho. "Não contribuiu apenas para a minha formação profissional. São lições que carregarei pelo resto de minha vida. Por isso a minha eterna gratidão", enfatiza.
Para o sociólogo e também professor da UnB Pedro Demo é uma honra saber que existem alunos que o consideram um exemplo. "Estou para me aposentar e saber disso me faz encerrar uma longa jornada de trabalho com a sensação de dever cumprido", ressalva. Mas, segundo ele, ser professor é isso mesmo, elaborar condições favoráveis para que o aluno se torne autônomo e, possivelmente, supere o próprio mestre.
E este grande mestre, será que não teve um empurrãozinho de algum professor? Demo confessa que sim. E não foi um só, não. Seus principais mentores foram todos aqueles que passaram por sua formação básica. "Os professores das primeiras séries, sobretudo, o professor alfabetizador. E aí, onde tudo começa. Se tivermos um bom começo tudo indica que o futuro será melhor ainda. O grande início de uma história profissional está no bê-á-bá", encerra.
A escolha de um caminho
Todo profissional, ou pelo menos a maioria, almeja o sucesso, não é mesmo? Mas antes de alcançar isto é preciso tomar algumas decisões. A primeira e, talvez, a mais importante, está relacionada com a escolha da carreira profissional. Em seguida, decidir o melhor caminho a percorrer: docência ou mercado de trabalho. Para o professor de Turismo da PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas) Luiz Gonzaga Godoi Trigo esta não foi uma escolha nada fácil.
O primeiro passo foi fazer a graduação em Turismo e partir para o mercado de trabalho. Mas, por inspiração em alguns de seus professores, Trigo decidiu que o seu caminho profissional estava voltado à carreira acadêmica. "O carinho com a profissão por parte de alguns educadores acabaram me despertando o interesse", conta. Foi aí, então, que começou a caminhar neste sentido. Partiu para a segunda graduação, desta vez na área de Filosofia, seguiu para o mestrado e, por fim, para o doutorado.
Um caminho longo e que já completam 18 anos de carreira. Mas, Trigo faz questão de ressalvar a importante participação de três mestres: Régios de Moraes, Constança Marcondes César e Mario Benner. "A generosidade destes professores que encontrei na graduação me fizeram chegar até aqui. Foram eles que me abriram as portas e que me ensinaram ser o professor que sou", relata. E mais, o filósofo não se esquece da Irmã Angelina, a professora responsável por seus primeiros passos. "É para estes grandes mestres, cada um com a sua devida importância, que presto a minha homenagem", finaliza.
Meus inúmeros mestres
Escolher um entre os, mais ou menos, 80 professores que passaram pela sua vida é uma missão praticamente impossível. Por isso, o professor de química da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e secretário da educação de Pernambuco, Mozart Neves Ramos, destaca um para cada uma das etapas profissionais. "Todos eles tiveram a sua participação - uma importante participação - mas sempre tem aqueles que a gente se identifica mais", afirma.
As referências começaram bem cedo, ainda no primeiro ano do Ensino Fundamental. "Dona Rosemira, uma professora muito rigorosa e disciplinada. Tinha um biótipo frágil, era baixinha e magrinha", lembra. E foi aí que Mozart despertou o interesse pelos estudos. No Ensino Médio a influência esteve mais voltada para a carreira profissional. "Estes professores me ajudaram muito a formatar o meu amor pela docência", diz. Nesta fase, o secretário destaca a participação do professor de física Câmara Lima, que colaborou diretamente com a escolha da sua área profissional (Física e Química).
Na universidade, como estudante de Engenharia Química, Mozart encontrou um dos seus grandes mestres, Hugo Valpasso. "Foi uma das pessoas que mais me incentivaram seguir a carreira acadêmica. Me lembro, inclusive do dia em que resolvi fazer o meu doutorado na Universidade de Campinas e, sem ter ainda assegurado uma bolsa de estudos, ele me disse: 'Não se preocupe, se for o caso vendo meus livros e você vai'", recorda. Conseguido realizar este sonho, o químico se encontrou com um outro grande professor, Roy Brunes. "Este consolidou uma trajetória de vida que embasou todo o processo da minha vida de docente".
Muitos professores participando de uma única carreira. "Todos eles marcaram muito a minha formação, a minha índole e realmente por tudo que me ensinaram. Não somente pelas matérias, mas pelos exemplos de vida, constituíram marcas importantes na minha formação", finaliza Mozart.