03/10/2008

Alunos que trabalham fora têm maior risco de repetência escolar

Por Redação Agência USP

Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP constatou que as chances de um estudante do ensino fundamental repetir o ano, se trabalhar fora, é 260% maior em relação àqueles que não trabalham. A enfermeira Renata Cristina da Penha Silveira entrevistou 133 alunos do ensino fundamental da rede pública municipal de Ribeirão Preto entre agosto e setembro de 2006, nos períodos da manhã, tarde e noite. Do total, 27,7% informaram estudar e trabalhar fora de casa. Entre os que trabalham fora, 38,9% informaram já terem repetido o ano, enquanto que a média geral foi de 18,2%. Ao mesmo tempo, 10,8% dos alunos que não repetiram o ano não trabalhavam fora.

Em relação à renda, a pesquisadora constatou, entretanto, que não houve diferença estatisticamente significante entre os dois grupos de crianças que trabalhavam fora de casa e aqueles que não trabalhavam. O trabalho foi orientado pela professora Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi.

A idade mínima de início do trabalho entre os entrevistados variou de seis anos de idade até 15 anos, mas a maior parte, 20,6%, iniciou as atividades aos onze e aos treze anos de idade. "O resultado está de acordo com o que existe na literatura acadêmica. Outros estudos já mostraram que alunos começam a trabalhar a partir dos 10 anos", diz Renata. No grupo dos que trabalham fora, Renata encontrou somente um que disse possuir carteira de trabalho com registro. "Compor a renda familiar, ganhar dinheiro e gostar de trabalhar, foram os motivos alegados pelos alunos para justificar o fato de irem pro trabalho tão cedo", acrescenta.

Outro fato que chamou a atenção da pesquisadora foi o número de crianças e adolescentes que informaram ajudar os pais em casa, 127 dos 133 entrevistados, ou seja, muitos, além da carga de trabalho fora de casa, ainda acumulam atividades dentro de casa. O tempo disponibilizado para essa ajuda variou entre meia hora e 12 horas. Desses, 27 afirmaram já ter sofrido acidentes durante o trabalho em casa e, entre os que trabalham fora, dois disseram já ter sofrido algum tipo de acidente.

Rendimento
A pesquisadora concluiu que quanto mais a criança e o adolescente são absorvidos pelo trabalho, maior é a possibilidade de terem um aproveitamento escolar insatisfatório e abandonarem os estudos e, em consequência, continuarem em condições sócio-econômicas inferiores na comparação com outros estudantes. "Também se confirmou a hipótese de que as crianças e adolescentes cujas famílias apresentam baixos salários, são mais encorajadas a trabalhar em relação àquelas cujas famílias têm maior renda", completa Renata.

O trabalho realizado fora de casa não colabora com ausências nas aulas ou com a evasão escolar, mostra o estudo. "Mesmo com grande chance de repetência, ocorrem aprovações à série subseqüente", analisa a pesquisadora. "Isso se dá em função da progressão continuada, adotada pela rede pública de ensino em Ribeirão Preto".

Outra surpresa detectada nas entrevistas, segundo Renata, foi o relato dos professores dos alunos que trabalham fora. "São alunos mais atenciosos, que vão à escola por gostar de ir e quando tem alguma atividade em grupo eles se destacam. Penso que se tornam adultos precoces, pois desde cedo têm a responsabilidade de quem trabalha fora", pondera. A pesquisadora lembra que esses estudantes sempre estão cansados nas aulas. "O trabalho infantil é prejudicial, pois essas crianças não têm tempo para brincadeiras, o que é fundamental para o seu desenvolvimento, tanto que o trabalho infantil é proibido", afirma.

De acordo com a enfermeira, a pesquisa confirmou o que já foi descrito na literatura acadêmica. "Os alunos querem ser profissionais preparados para o futuro, vislumbram o ensino superior, mas quanto mais cedo começam a trabalhar, menor será essa chance", aponta. "A renda da família será menor e eles dificilmente vão conseguir chegar ao sonhado ensino superior, mesmo almejando isso. Na maioria das vezes, eles param de estudar, chegam cansados e acabam se evadindo da escola. Tudo contribui para que sejam desestimulados a continuar".

A pesquisa acrescenta que os resultados do estudo contrastam com os indicadores educacionais de Ribeirão Preto, que ocupa a 14ª posição entre os 4.491 municípios brasileiros pesquisados pela PNUD/IPEA para a elaboração do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, no critério Índice de Condições de Vida-Educação. Em relação ao Estado de São Paulo, Ribeirão Preto ocupou a 5ª posição em um universo de 572 municípios. Ao levantar dados para a pesquisa, Renata apurou que a cidade apresenta uma das mais baixas taxas de analfabetismo entre os municípios do estado e do País, com 98% das crianças matriculadas no ensino fundamental.


(Envolverde/Agência USP de Notícias)


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