Alunos e professores dão aulas a jovens do Projeto Crer-Ser
Jovens de baixa renda têm aulas de informática, inglês e português.
Um grupo de 32 alunos do Colégio Dante Alighieri está mudando a realidade de 26 jovens de baixa renda em São Paulo. Uma vez por semana, eles são monitores em aulas de Língua Portuguesa, Inglês e Informática, numa parceria com o Projeto Crer-Ser. As aulas são ministradas em classes e laboratórios dentro da própria escola, que também fornece aos jovens, todos entre 15 e 21 anos de idade, vale-transporte (para todos os dias da semana) e lanche. “Nas aulas, eles trabalham com interpretação de texto, redação, aprendem na prática a usar Internet, e-mail, a procurar empregos nos sites e preparar um currículo, por exemplo”, explica Gabriela Bernardes Makishi, 16 anos, voluntária e estudante do 3ª série do Ensino Médio.
Além das disciplinas oferecidas no Dante Alighieri, no Crer-Ser os alunos também têm aulas de jardinagem e dinâmicas para trabalho em equipe, cooperação, organização, direitos e deveres. As atividades acontecem no Parque Trianon e no Ibirapuera nos demais dias da semana, exceto às quartas-feiras, destinadas a visitas guiadas a museus, parques e exposições. Recentemente, eles estiveram na exposição de Alfredo Volpi e dos dinossauros na Oca.
Cada tarde de terça-feira reserva duas aulas diferentes. Depois da Língua Portuguesa, o segundo horário é destinado ao Inglês ou à Informática, esta última sempre nas salas mais modernas do Dante, os laboratórios de robótica. É importante destacar que as aulas são focadas em temas relacionados ao cotidiano e à realidade dos jovens. “Se não fizermos isso, muitos acabam desistindo”, conta Gabriela. A idéia é permitir a liberdade de expressão, estimular a criatividade nas redações e discussões dos mais diversos assuntos. Isso faz toda a diferença na vida desses jovens. “Aqui eles encontram igualdade no relacionamento. Conhecemos todos pelo nome, somos iguais”, relata a monitora-aluna.
Segundo Silvana Leporace, coordenadora do Serviço de Orientação Educacional do Dante Alighieri, no início, houve um estímulo da curiosidade dos alunos em conhecer um a realidade do outro. Para a maioria desses jovens, entrar num local como o prédio do Dante era uma situação improvável. Ao mesmo tempo, para os estudantes do colégio, enxergar que existem outras realidades, diferentes das deles, é um profundo processo de crescimento e aprimoramento pessoal. “Fazer parte da vida do outro, fazer a diferença, isso é o que mais importa”, diz Silvana, que também é responsável pela realização do projeto no Dante junto com as coordenadoras Valdenice Minatel Melo de Cerqueira (Tecnologia), Marília Negrini (Inglês) e Maria Cleire Cordeiro (Português). “A educação é a melhor ferramenta para o resgate da cidadania desses jovens”, completa.
A voluntária Celina de Luca, professora de Língua Portuguesa do colégio, afirma que a melhor recompensa é a atenção dos alunos, a dedicação, a vontade de crescer, o brilho nos olhos. Esse brilho nos olhos é o que mais chama a atenção em Natália Gomes, de 16 anos, na 6ª série, aluna do projeto desde o início do ano. “No começou foi meio difícil, mas agora estou me acostumando. É para o meu futuro”, diz. Angélica Soares, de 17 anos, está no 3ª série do Ensino Médio e quer fazer vestibular para Biologia. “Na escola, a gente estuda por obrigação. Aqui, é por prazer”. As dificuldades encontradas nas escolas públicas freqüentadas por estes alunos contrastam com a situação vivida nas aulas do Dante. “As professoras (referindo-se também às alunas monitoras) ensinam com mais facilidade e atenção”, conta Natália.
Em algumas aulas, o número de monitores chega quase a ser equivalente ao de alunos, o que permite uma dedicação exclusiva e uma relação muito mais intensa entre todos. Angélica, veterana, pois está no projeto desde 2005, ilustra os resultados para além do conhecimento concreto em Português, Inglês e Informática. “Quando comecei eu era muito tímida, mal conseguia falar com as pessoas”, conta. “Agora aprendi a ser mais solta, fizemos dinâmicas, perdi a timidez”.