20/11/2007

Alunos e comunidade têm vez e voz em escola democrática de EJA

Por Karina Costa, do Aprendiz

Gestão democrática e educadores dispostos a atuar contra a corrente do sistema educacional vigente, autoritário e hierarquizado e que buscam sempre o aprendizado do aluno. Esses são os ingredientes que fazem do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) do Campo Limpo, localizado na zona Sul de São Paulo (SP), uma escola na qual os alunos e a comunidade local têm vez e voz.

A primeira atitude para a transformação da escola aconteceu em 1999, quando a atual coordenadora do centro, Eda Luiz, foi convidada para dirigir o espaço. Nessa época, ela recrutou professores que, assim como ela, estavam descontentes com a escola regular e acreditavam numa virada. Com o corpo docente montado, os educadores foram atrás de quem consideravam peça fundamental para o bom funcionamento e desenvolvimento da escola: a comunidade.

"Tínhamos acabado de chegar no bairro Capão Redondo para enfrentar o desafio. Fizemos um movimento, convidamos a comunidade para nos conhecer e, a partir desse encontro, surgiu a primeira ação em parceria: a assembléia coletiva. Nela, discutimos constantemente assuntos que vão desde conflitos ocorridos na comunidade até merenda e currículo escolar", conta Luiz.

Ela lembra que no Cieja Campo Limpo não há divisão por séries, mas sim organização modular. "Ao chegarem na escola, os alunos são avaliados e direcionados para os módulos: alfabetização, pós-alfabetização, intermediário e final. Quando eles concluem o ciclo, recebem o diploma de conclusão do ensino fundamental II", explica. Apesar da divisão por módulos, os alunos são integrados em projetos pedagógicos de seu interesse pessoal, ou seja, interagem com os estudantes de turmas diferentes.

Em assembléia, os alunos elegem os temas que desejam trabalhar durante o ano, de modo a atingirem diretamente a comunidade. Em 2007, os assuntos escolhidos foram Meio Ambiente e Trabalho. O projeto ambiental, entre seus objetivos, visa arborizar toda a estrada de Itapecerica da Serra. "Para calcular a área que querem atingir, precisam dos conhecimentos de Matemática. Além disso, eles precisam da Geografia, Ecologia e História para saber mais sobre Meio Ambiente. É a partir dessas necessidades práticas que os professores ensinam os conteúdos", diz.

"Jovens e adultos têm como princípio de ação a autonomia. Precisávamos, então, recebê-los numa escola em que as decisões deles fossem levadas em consideração. Não podíamos reforçar o modelo da escola tradicional, no qual o professor fala e o aluno copia".

Um diário de bordo foi adotado por cada aluno para que relatem seus dias na escola. "Eles escrevem sobre o que aprenderam, o que acham que precisam melhorar e julgam o que a aula trouxe de importante para suas vidas. É uma outra maneira de acompanharmos a evolução da escrita, como se expressam e o que pensam sobre as aulas", diz a coordenadora, lembrando que os alunos podem freqüentar, de forma flexível, diversos turnos.

Acesso gratuito à Internet, sarau literário, cursos de qualificação profissional, oficinas de fotografia e vídeo, além de lanche comunitário. Essas são algumas das atividades paralelas que acontecem na escola e são abertas à comunidade. "Se o aluno pichou a escola, convidamos ele para dar uma oficina de artes, sobre pichação e grafite. Para os pais que têm filhos surdos, oferecemos oficinas de Libras (linguagem de sinais). Um dos nossos alunos que é deficiente mental, por exemplo, sabe muito sobre tear e pediu para ensinar na escola. Ver que podia ensinar algo foi muito significante para ele. Descobrimos muitos talentos durante essas oficinas", revela.

O público da escola também é bastante diferenciado. "É toda aquela pessoa que a sociedade e, por conseqüência à escola regular, excluiu", conta Luiz. São 1.400 alunos, sendo 170 deficientes, além de idosos e jovens em situação de Liberdade Assistida (L.A.). "Fazemos com que as pessoas se sintam seres humanos. Não queremos saber o que fizeram os meninos em conflitos com a lei, por exemplo. Nosso esforço é para que eles reflitam sobre a vida, tomem decisões conscientes. Eles têm essa imersão na violência e residem em comunidades pobres. Se não trabalhamos esses valores, fica difícil. A gente acaba perdendo os meninos para o tráfico e para o crime".

Ela conta que a escola começou a funcionar nesse processo de gestão e educação democrática intuitivamente, sem mesmo conhecer que esse modelo acontece em outros países. "Tenho 35 anos de experiência em sala de aula de ensino regular e de EJA e posso dizer que foram anos conflituosos. Resolvi ser parte dessa mudança, pois acredito que a escola tem que ser dinâmica e não pode conservar as mesmas diretrizes. O movimento da educação democrática surgiu nas escolas de elite em países de primeiro mundo. Temos provado que dá para fazer isso em escola pública, com poucos recursos".

"Apesar da autonomia que a secretaria de educação permite, é preciso sempre provar que estamos dando certo. O professor não pode se esconder dos problemas. Ser professor é uma escolha muito importante que fizemos, portanto temos que estar preparados para tudo", defende Luiz, lembrando que o modelo de gestão do Cieja Campo limpo deve ser fio condutor para possíveis mudanças nos 14 demais Ciejas que existem no município.
(Envolverde/Aprendiz)

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