31/10/2006

Alunos do ensino público de Campinas apresentam dieta desequilibrada

Por Juliana Cardilli, da Agência USP

Dados relativos ao consumo de alimentos por escolares da rede pública de Campinas indicam uma dieta muito desequilibrada, com uma grande deficiência de cálcio, vitamina A e fibras, essenciais para um desenvolvimento correto. Segundo Mariana Schievano Danelon, formada em Ciências dos Alimentos, essa incoerência alimentar, se mantida a longo prazo, ajuda a explicar as altas taxas de desnutrição e obesidade encontradas no estudo que ela está produzindo na Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Esalq) da USP de Piracicaba.

As pesquisas de Mariana, que trazem análises sobre esses dados, compõem seu mestrado. Os primeiros resultados a ficarem prontos dizem respeito a 206 adolescentes de 10 a 14 anos, que foram entrevistados sobre seu estilo de vida e atividades físicas. Eles foram medidos, pesados, e responderam a um questionário chamado Recordatário 24 horas, onde especificaram tudo o que haviam ingerido nas 24 horas anteriores. "O questionário avalia a dieta habitual e podemos comparar a quantidade de energia e nutrientes consumidos com os valores recomendados", explica Mariana.

Com os dados físicos dos estudantes, a pesquisadora avaliou a altura em relação à idade, indicador do desenvolvimento e o Índice de Massa Corpórea (IMC), obtido com a divisão do peso pela altura ao quadrado, que permite determinar se a pessoa está no acima, abaixo, ou no peso correto. "Apenas 1% apresentou um déficit de altura, o que é um resultado bastante satisfatório, pois é esperado até 2%", conta. "Já em relação ao IMC, encontramos 9% abaixo do peso, e 8% de obesos. O valor de referência para ambos é 5%."

Balanço energético
O balanço energético refere-se ao consumo total de calorias em relação ao que é gasto, envolvendo o metabolismo, exercícios, crescimento e a demanda energética. Entre os adolescentes entrevistados, 49,5% têm uma ingestão menor do que a necessária, e 37,9% têm um consumo de energia maior do que a demanda. "Esses dados, aliados às análises da prática de exercícios físicos e do estilo de vida, auxiliam na explicação da desnutrição e da obesidade", explica Mariana. "É necessária uma orientação nutricional. Apenas 12,6 % tiveram uma ingestão adequada."

A dieta também se mostrou desequilibrada em relação à proporção de nutrientes e sua contribuição para a energia total. Dos três subgrupos considerados (carboidratos, lipídios e proteínas), 68% dos adolescentes tinham uma ingestão inadequada para pelo menos um deles. Em 7% dos casos, a desproporção estava presente nos três subgrupos. "Além disso, observamos um reduzido consumo de frutas e hortaliças, o que justifica o baixo consumo de fibras, com 90% dos escolares apresentando ingestão menor do que a recomendada, e uma grande participação do açúcar na dieta. É recomendado que até 10% das calorias venham desses alimentos, e o encontrado foi 22%."

Entre os outros nutrientes avaliados, o colesterol apresentou-se acima do recomendado para 25% dos adolescentes, mas, segundo a pesquisadora, outros fatores relativos à idade influenciam na determinação destes limites, como a maturação sexual e o desenvolvimento. A vitamina A, cuja deficiência representa um dos maiores problemas de saúde pública do País, foi consumida em quantidades bem inferiores ao recomendado por 75% dos estudantes.

O cálcio, importante para a formação da massa óssea nesse período, era deficiente em 90% dos casos, sendo que 50% consumiam menos da metade do recomendado. "A dieta é muito desequilibrada, 12,5% da energia vem das chamadas 'calorias vazias', de bolachas, salgadinhos e refrigerantes. Também há grande presença de alimentos de origem animal, muita carne bovina, e poucos pescados", conta Mariana.

A pesquisa faz parte de um projeto maior que envolve outras universidades, e tem apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação da Universidade Estadual de Campinas (NEPA/Unicamp). A mestranda ainda vai analisar dados relativos a crianças mais novas e à merenda escolar. "Essa avaliação é necessária, pois as crianças passam grande parte de seu tempo nas escolas. Além disso, é preciso propor programas de orientação nutricional, e envolver os pais nessa tarefa", conclui.

Mais informações: e-mail mdanelon@esalq.usp.br, com a pesquisadora

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