Além do Brincar: A Escola como Espaço de Cura e Emancipação
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
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A filosofia sempre nos auxiliou a compreender o mundo e a criticar o status quo. Ela nos revela nossa própria ignorância diante do conhecimento que julgamos possuir e é, justamente nessa consciência de incompletude, que percebemos como a filosofia desenvolve o pensamento crítico. Ela nos ensina a questionar, raciocinar e refletir sobre valores, permitindo a construção de argumentos sólidos para, enfim, contribuirmos com um mundo melhor.
Nietzsche afirmava: “Eu sou vários! Há multidões em mim. Na mesa de minha alma sentam-se muitos, e eu sou todos eles. Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo...”. De fato, carregamos multidões internas e, concomitantemente, somos múltiplos nas interpretações alheias — visões muitas vezes moldadas pelos interesses de quem nos vê.
Nesse cenário, a educação surge como uma ação intencional que implica mudança de comportamento. Contudo, quando a mudança de conduta não é acompanhada pelo discernimento do "porquê", ela deixa de ser educação e torna-se mero adestramento e obediência civil; o indivíduo passa a ser apenas mais um a integrar a "massa de manobra".
A infância exige que o pensar e o agir sejam próprios da criança. O brincar é a principal forma de explorar o mundo, aprender e amadurecer gradativamente. No entanto, ao estudarmos a história da humanidade sob a ótica de Ariès (1981), percebemos que, outrora, assim que adquiria desembaraço físico, a criança já era vista como um "adulto mirim", vestindo-se e agindo como tal. A preocupação moderna com a infância e com uma educação específica é uma conquista recente historicamente.
No Brasil, ainda vemos muitas "crianças atrasadas" em seu próprio tempo, pois muitos adultos foram forçados a abandonar a infância precocemente. Não precisamos recorrer apenas aos livros de história para saber da exploração infantil nas fábricas; basta ouvirmos os relatos de nossos mais velhos. Lembro-me de meu pai dizendo que começou a trabalhar aos sete anos. Com o tempo, percebi que ele não teve infância, e essa lacuna certamente deixou marcas. É triste notar que ainda hoje há quem se coloque contra auxílios sociais que permitem à criança ser criança, garantindo-lhe o direito de estudar em vez de trabalhar.
Gustavo Trevisan, mestre e doutor em psicologia, elucida em suas reflexões que experiências emocionais não vividas não desaparecem; elas permanecem em estado bruto, aguardando uma chance de existir. A criança que não pôde brincar não morre, ela se esconde. Por isso, existe uma criança dentro de cada um de nós — muitas vezes frustrada e ferida, projetando-se em filhos e netos para tentar viver o que lhe foi negado. Como diz Trevisan, essa criança cresce esperando permissão para emergir.
Ao analisarmos o comportamento humano, notamos que muitos dos que tiveram a infância subtraída projetam essas frustrações em comportamentos destrutivos ou em dificuldades de socialização e nas relações. Não podemos fugir da nossa história, mas podemos aceitá-la e compreendê-la para não projetarmos nossos traumas nas gerações futuras.
Portanto, ao ver uma escola de educação infantil, não a enxergue apenas como um lugar para brincar. É um espaço de aprendizado, socialização, pertencimento e respeito às diferenças. É ali que a criança aprende a superar o egocentrismo, preparando-se para ser, no futuro, um adulto equilibrado, consciente, livre de traumas e bem resolvido.