04/09/2007

Ações populares incentivam a leitura em diversos pontos do Brasil

Por Sabrina Craide, da Agência Brasil

Brasília - Iniciativas individuais, de empresas e de entidades estão ajudando a levar a leitura a paradas de ônibus, estações de metrô, favelas, becos, vielas e outros locais do Brasil. Quem costuma pegar ônibus na capital federal teve uma feliz surpresa nos últimos dois meses. O açougueiro Luiz Amorim resolveu facilitar o acesso dos brasilienses aos livros, criando o projeto Parada Cultural.

Os livros ficam em estantes, em seis paradas de ônibus de Brasília e quem quiser levar para casa é só anotar o nome e o título do livro em um caderno específico, sem prazo para devolução, sem pagar nada. Durante o dia, um funcionário faz o atendimento, mas os livros podem ser retirados também à noite. Já são mais de 9 mil títulos à disposição dos passageiros-leitores. A cada dia, cerca de 50 livros são retirados das estantes para serem levados para casa, em cada uma das unidades.

Para o idealizador do projeto, isso mostra a vontade de ler da população. "Estamos provando, com essa quantidade de livros emprestados, que o brasileiro gosta de ler, mas não tem acesso ao livro", afirma.

Amorim reconhece que o acesso à leitura no Brasil ainda é muito ruim e defende a democratização dos livros com a instalação de pequenas bibliotecas dentro das comunidades. "O projeto da parada de ônibus é também uma crítica ao modelo de biblioteca pública, ela não é uma biblioteca popular", critica.

O estudante de História José Thiago Garcia Mesquita, de 22 anos, costuma pegar livros emprestados toda a semana na biblioteca da parada de ônibus da 712 Norte. Ele também colabora levando livros e ajudando a organizar as estantes. Para ele, a falta de burocracia e a facilidade de acesso ajudam a desenvolver seus estudos. "O livro está muito caro, e aqui o acesso é melhor. A gente consegue pegar fácil, não tem burocracia", elogia.

Antes de conhecer a Parada Cultural, a doméstica Maria Helena Lima da Rocha não tinha o hábito da leitura. Hoje, virou costume levar para casa livros sobre religião e romances. "É maravilhoso, eu leio e levo para as minhas vizinhas também", conta. Ela aproveita as viagens de ônibus para viajar também nas histórias. "É bom para distrair, a gente leva duas horas para chegar em casa ,então dá para ler bastante, é ótimo".

Além da parada Cultural, Amorim mantém uma biblioteca comunitária com mais de 20 mil títulos. O sistema é o mesmo, é só chegar, escolher o livro e levar para casa. Mais 700 livros são disponibilizados também aos clientes do açougue de Amorim. Para manter os projetos, conta com o apoio de empresas públicas, além do governo distrital e do Ministério da Cultura.


São Paulo tem pelo menos três projetos de "bibliotecas" populares

Em São Paulo, pelo menos três projetos de incentivo à leitura têm dado resultados. Desde 2004, o "Embarque na Leitura" disponibiliza livros para os usuários das estações de metrô da capital paulista. Hoje já são mais de 21 mil usuários cadastrados, que têm à disposição um acervo de 11 mil livros nas estações Paraíso, Tatuapé e Luz. A próxima biblioteca deverá ser inaugurada ainda este ano, na estação do Largo 13.

Para retirar uma obra gratuitamente é preciso fazer um cadastro completo e apresentar comprovante de residência. Segundo o especialista de Marketing do Metrô, Aloísio Gibson, não há problemas com a devolução dos livros, pois os usuários têm respeito ao projeto.

O projeto do Metrô de São Paulo é patrocinado por empresas privadas e conta com o apoio da Lei Rouanet, do Ministério da Cultura. Assim, as empresas que investem na ação podem descontar o valor do Imposto de Renda.

Na Zona Sudoeste da cidade de São Paulo, as comunidades Real Parque e Jardim Panorama recebem uma vez por mês a visita de nove integrantes do Projeto Casulo. Eles levam em mochilas um acervo variado e montam bibliotecas improvisadas com tatames em pontos estratégicos das comunidades, como becos e vielas. O objetivo, segundo uma das articuladoras do projeto "Quando a leitura sobe a viela", Márcia Silva Licá, é aproximar a literatura de crianças e adultos e democratizar a leitura.

Quem se interessar pelos livros, também pode procurar a biblioteca comunitária mantida pelo projeto, que fica no Real Parque. Ela funciona desde 2004 e dispõe de um acervo de cerca de 5 mil exemplares a maioria doados. Para pegar um livro emprestado, é só fazer um cadastro, com nome, telefone, endereço e número da carteira de identidade. Cada pessoa pode pegar até dois livros de uma vez, e o tempo de empréstimo é de uma semana. O "Projeto Casulo" também desenvolve iniciativas de estímulo à leitura em creches e escolas da comunidade.


Governo quer bibliotecas públicas em todas as cidades brasileiras

O governo federal quer zerar o número de municípios que não têm bibliotecas públicas. Segundo um dos coordenadores executivos do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), Jéferson Assumção, atualmente existem 613 municípios sem biblioteca no país. "É preciso uma renovação bastante grande dos acervos e também transformar as bibliotecas em centros culturais".

Para ele, é necessário não apenas disponibilizar o livro mas também incentivar a prática cultural da leitura no Brasil. "É fundamental que o brasileiro leia mais e não só do ponto de vista funcional, educacional, pragmático, mas que leia do ponto de vista cultural, que desenvolva o hábito da leitura". Nesse sentido, ele cita o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler) como um importante instrumento para promover a prática da leitura no país.

Segundo Assumção, existem atualmente cerca de 3 mil ações no Brasil com o objetivo de desenvolver a leitura, muitas delas financiadas pela Lei Rouanet. Ele cita a realização de feiras, de jornadas de literatura, bienais e também a criação de bibliotecas em cidades do interior. Em 2006, foram captados R$ 90 milhões por meio da Lei Rounaet, que prevê isenção fiscal para empresas que investirem em cultura.

Apesar da desoneração fiscal promovida pelo governo federal em 2004, Assumção afirma que o livro ainda é muito caro no Brasil. Segundo ele, a ação governamental diminuiu o custo de fabricação do livro em 7%, mas isso ainda não foi repassado ao preço dos livros.

Ele lembra que há poucas livrarias no país - cerca de 2,3 mil concentradas em 600 municípios - e que o maior acesso à leitura também pode contribuir para baixar o preço dos livros. "Quanto mais se ampliar o acesso, maior será a procura, e essa procura faz com que as tiragens cresçam" , afirma.

Não existem dados atualizados sobre o interesse dos brasileiros pelos livros. A última pesquisa, de 2001, aponta que cada pessoa lia por ano uma média de 1,8 livro no país, segundo o Ministério da Educação. Assumção lembra que a meta do PNLL é aumentar em 50% esse índice.

Segundo a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) de 2005, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as bibliotecas públicas são os equipamentos mais presentes nos municípios brasileiros. São 6.545 bibliotecas localizadas em 4.726 municípios (85% do total), com uma relação de 1,2 biblioteca por município.

(Envolverde/Agência Brasil)

Assine

Assine gratuitamente nossa revista e receba por email as novidades semanais.

×
Assine

Está com alguma dúvida? Quer fazer alguma sugestão para nós? Então, fale conosco pelo formulário abaixo.

×