14/05/2021

A Romantização dos Miseráveis

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

 

Aranha em seu livro intitulado História da Educação, publicado pela Moderna em 2000 disserta que Paulo Freire, apesar de alguns políticos e néscios desconhecerem o seu legado, foi um dos pedagogos mais importantes, tento sua representatividade não apenas no Brasil, como também no mundo, e desta forma, o nosso patrono da educação com o seu cristianismo efervescente baseado em uma teologia libertadora, teve como preocupação o contraste entre a pobreza e a riqueza que polariza os privilégios sociais, culminando em abismos entre estas duas classes.

Seguindo este viés, Demo em seu livro Saber Pensar, publicado pela Cortez em 2000, ressalta que ser pobre é menos não ter do que não ser. Para o autor, passar fome é uma grande miséria, todavia, a pior miséria mesmo é saber que a fome é inventada e imposta e para superá-la, não basta receber comida, faz-se de suma importância oferecer condições do cidadão prover o seu próprio sustento.

Cortella em entrevista na CBN[1] enfatiza que no Brasil está acontecendo o que ele chama de romantização da simplicidade. Para este educador, esta simplicidade para muitos não passa de carência e miserabilidade. Podemos observar que é falta do mínimo para o seu sustento e sua dignidade.

Dando continuidade as falas de Cortella, esta visão distorcida só reforça a falta de vivência e concomitantemente a falta de entendimento da pobreza, já que uma vida simples difere de carência.

Para Cortella, uma vida simples é quando se tem menos apego as coisas materiais e não estar tolhido de possibilidades de acesso.

Podemos complementar nas elucidações de Demo que pobreza, não implica apenas estar privado de bens materiais, mas sobretudo estar privado de construir suas próprias oportunidades.

Harari em seu livro Sapiens - Uma Breve História da Humanidade, publicado pela L&PM em 2016, acrescenta ao elucidar que a fome é inimiga da humanidade a milhares de anos, e que recentemente, a maioria dos seres humanos vivia no limite mesmo da linha de pobreza biológica, abaixo da qual as pessoas sucumbem à desnutrição e à fome.

Para o autor supracitado, a pobreza pode ser representada de duas formas, a "pobreza social, que nega a algumas pessoas as oportunidades disponíveis para outras e a pobreza biológica, que põe em risco a própria vida dos indivíduos por falta de alimento e abrigo".

Para Harari, esta pobreza social não tende a ser erradicada, no entanto, em muitos países a pobreza biológica tornou-se um passado já esquecido, o que torna então esta pobreza como um problema técnico passível de intervenção, com políticas públicas e sociais para sua total erradicação, porém esta erradicação no Brasil não tem nenhuma força e tampouco vontade política.

Segundo pesquisa, o número de miseráveis tem aumentado progressivamente em nosso país, pois de acordo com dados do Ministério da Cidadania "39,9 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza no Brasil. O número supera a população inteira do Canadá, que é de 38 milhões de habitantes"[2].

Assim sendo, precisamos observar as falas de Cortella e perceber que paira no discurso proferido no dia 19 de julho de 2019, uma falácia, pois o então presidente afirma neste discurso que "passar fome no Brasil é uma grande mentira"[3].

Pode ser uma grande mentira quando se vive como Alice no país das maravilhas, onde se comemora o dia das mães com um simples churrasquinho entre os amigos comprando picanha de 1.799,99 o quilo[4] pago com dinheiro público, tendo milhões de pessoas à míngua.

Um país das maravilhas a ponto de se fazer um orçamento paralelo de 3 bilhões para atender melhor a base aliada[5], mas negando investimentos na educação e se omitindo de compras de vacinas em tempo hábil, ceifando com esta atitude, milhares de vidas que poderiam ter sido salvas.

Como pode observar, é difícil falar de educação sem perpassar pela política, pois toda educação é um ato político e cabe a nós educadores dar esta visão a nossos educandos para que não sejam alienados a ponto de aumentar o comportamento de manada causada pelo bloqueio mental, resultado de uma distorção cognitiva mediante a com uma visão míope da dura, cruel e insana realidade vivida pelos pobres e causada pela distorção cognitiva salientada pela falta de discernimento.

 

[1] https://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/340419/romantizacao-da-pobreza-e-uma-falta-de-vivencia.htm?fbclid=IwAR2e3Cs-ragQigLr2l9uompNk3kmlnIewkWZl_sDWNb_4sEUDACnGaMiHH0

[2] https://observatorio3setor.org.br/noticias/numero-de-pessoas-na-miseria-no-brasil-supera-populacao-inteira-do-canada/

[3] Para mais informações vide: https://exame.com/brasil/falar-que-se-passa-fome-no-brasil-e-uma-mentira-diz-bolsonaro/
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/07/falar-que-se-passa-fome-no-brasil-e-uma-grande-mentira-afirma-bolsonaro.shtml
https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2019/07/19/bolsonaro-diz-que-nao-existe-fome-no-brasil---e-uma-grande-mentira.html
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/19/politica/1563547685_513257.html

[4]https://cozinhabruta.blogfolha.uol.com.br/2021/05/10/churrasco-de-bolsonaro-tem-picanha-de-r-1-79999-o-quilo/

[5] Para mais informações vide https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2021/05/10/mp-junto-ao-tcu-pede-investigacao-do-orcamento-paralelo-de-bolsonaro.htm

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