03/09/2026

A Razão Terceirizada: Exemplos de uma Alemanha de 1940 em um Brasil de hoje

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Dietrich Bonhoeffer desenvolveu a "teoria da estupidez", na qual defende que a estupidez é um inimigo do bem muito mais perigoso do que a própria maldade. Segundo Renato Pincelli (2022)[1], Bonhoeffer, que foi um teólogo e pastor alemão, formulou essa ideia enquanto estava preso por resistir ao regime nazista, tentando compreender como uma nação inteira permitiu a ascensão do totalitarismo.

De acordo com o pesquisador, essa teoria surgiu no contexto em que a maioria dos cidadãos alemães havia abraçado as ideias totalitárias de Adolf Hitler. Como Bonhoeffer fazia parte de uma minoria que se recusava a ser conivente com o mal explícito praticado pelo regime, ele chegou à conclusão de que o inimigo mais perigoso do bem não era o mal em si, mas a pura estupidez.

Para Bonhoeffer, sua teoria era balizada em quatro pontos fundamentais:

  • Falha moral, e não intelectual: Ele constatou que a estupidez não está relacionada a problemas cognitivos, mas sim a um problema moral e social. Para o teólogo, pessoas inteligentes podem ser estúpidas com a mesma intensidade, enquanto indivíduos com pouca instrução acadêmica ou menor agilidade mental podem não apresentar estupidez alguma.
  • Natureza coletiva e sociológica: Esse fenômeno costuma surgir na coletividade e no senso de pertencimento, frequentemente impulsionado pelo poder político ou religioso. Nessas circunstâncias, as pessoas abrem mão do "eu" e do "pensar por si mesmas", terceirizando o pensamento para os seus líderes.
  • Imunidade à razão: Por mais que se tente convencer uma pessoa estúpida por meio de fatos e argumentos racionais, ela não aceitará. A alienação é tão profunda que qualquer evidência que contrarie seus preconceitos é sumariamente ignorada. Desse modo, os indivíduos tornam-se teimosos e transformam-se em massa de manobra, prontos para cometer atrocidades e barbáries convictos de que são os "escolhidos" e de que estão apenas fazendo o que deve ser feito.
  • Necessidade de libertação: A estupidez não se combate puramente com educação formal — tanto que Hitler convenceu professores, médicos, escritores e intelectuais instruídos. O autor defende que a verdadeira libertação ocorre por meio do autoconhecimento. Trata-se de uma emancipação interna que reverbera no meio externo, permitindo que o indivíduo recupere sua autonomia intelectual e seu poder de discernimento, assumindo a responsabilidade por suas próprias ações.

Diante do questionamento de como tanta gente "boa" pôde ser conivente com Hitler, Bonhoeffer percebeu que, enquanto contra a maldade é possível lutar, denunciar e resistir, contra a estupidez não há defesa. Isso ocorre porque o estúpido não possui um déficit cognitivo, mas é alguém que voluntariamente renunciou ao livre-arbítrio, ao juízo próprio e à própria autonomia.

Ao entregar a capacidade de pensar a um líder, grupo, ideologia ou slogan, torna-se impossível convencer esse indivíduo pela razão, pois ele já não a exerce mais; a sua razão passou a ser a do líder. Esse processo gera um falso sentimento de grandeza e de pertencimento ao "lado certo". Consequentemente, essas pessoas passam a odiar indivíduos que sequer conhecem, apenas porque o líder os apontou como inimigos. Cometem atrocidades que qualquer pessoa em pleno juízo consideraria absurdas ou imbecis, mas enxergam tais atos com normalidade, pois o comportamento coletivo reforça o laço de pertencimento.

Diante desse lado da história desconhecido por muitos, cabe a pergunta: será que o que acontece no país é mera comentário ou coincidência? Cenários de pessoas rezando para pneus, acendendo celulares na cabeça em busca de intervenção alienígena ou cometendo o absurdo de ingerir detergente revelam o tamanho do fanatismo. Ao vermos esses cidadãos reféns das falácias de seu líder, fica evidente que tamanha semelhança com distopias históricas não é nenhuma coincidência.

Afinal, poucos conseguem se libertar desse estado, e os que conseguem geralmente passam por um forte choque de realidade que evidencia as falhas do mundo em que viviam. Assim, Bonhoeffer conclui empiricamente que a estupidez não se trata de um problema psicológico individual, mas sim de um complexo fenômeno sociológico de grupo.

 

[1] https://rntpincelli.medium.com/a-teoria-da-estupidez-de-que-explica-perfeitamente-o-mundo-a6fd082bf638

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