| Por Talita Mochiute, do Aprendiz | “A qualidade dos professores é o elemento mais importante da escola”, afirmou o professor norte-americano da Universidade de Stanford, Eric Hanushek, doutorado pelo MIT. O pesquisador participou na última quarta-feira (24/6) do Seminário Educação e Desenvolvimento, realizado pela Fundação Itaú Social, na cidade de São Paulo (SP).
Durante a palestra, Eric Hanushek enfatizou a importância de políticas voltadas para a melhoria do rendimento do professor em sala de aula. “O que aconteceria se pudéssemos eliminar os piores professores?”, polemizou. Analisando o contexto educacional norte-americano, relatou que, se isso fosse possível, os Estados Unidos poderiam chegar ao nível do Canadá no PISA (sistema de avaliação internacional que compara o desempenho educacional dos países). “Se conseguíssemos substituir os 10% piores pelos médios, poderíamos atingir o índice da Finlândia (primeira no ranking)”.
O professor acredita que a melhora da qualificação dos professores é a chave para a eficiência do sistema educacional. "Não importa o tempo que a criança fica na escola, mas sim a quantidade de conteúdo que ela aprende", disse. Além de ser o responsável pela aprendizagem do aluno, o bom professor, de acordo com Hanushek, é capaz de diminuir as defasagens existentes entre uma criança de família rica e outra de família pobre.
Segundo o professor, o que determina o bom rendimento do professor em sala de aula não é seu nível de escolaridade, nem o tempo de experiência, nem seu salário. "Não há uma relação direta entre esses fatores e os desempenhos do professor e do aluno. Então, como melhorar a eficiência dos professores?”, questionou.
Para Hanushek, como é difícil, por questões corporativistas, demitir os professores ruins, deve-se fazer programas agressivos de reconhecimento por mérito. “Os pagamentos devem estar atrelados ao rendimento do aluno”. Essa medida serviria para manter os bons profissionais em sala de aula e incentivar um maior comprometimento do corpo docente. O professor defende ainda processos rigorosos de seleção e um novo desenho para os programas de treinamento.
O economista e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Ricardo Paes de Barros, presente no seminário, também defendeu a política de bonificação para professores. “Há heterogeneidade no desempenho. Por que não premiar os melhores? Os professores têm salários socialistas. Por que sub-valorizar os melhores? E sobrevalorizar os piores?”, provocou.
Sobre essa questão, a professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-secretária de Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena Guimarães, comentou que o judiciário é bastante refratário a mudanças na isonomia (equiparação) salarial. “As carreiras são dominadas por sindicatos que cobram os direitos, mas não o da qualidade”. Defendeu ainda a extinção das carreiras atuais, herdados de “legislações antigas e corporativistas”. “O diagnóstico é muito fácil de ser feito. O problema é como mudar a situação atual face às restrições de legislação. Como promover a diferenciação salarial e a gestão dos gastos de maneira inteligente?”, questionou o economista Naércio de Menezes Filho.
Educação e Desenvolvimento Econômico
De acordo com Menezes Filho, o investimento em educação é a maneira mais correta de melhorar os indicadores sociais e econômicos. Para os especialistas presentes no debate, o desenvolvimento econômico possui relação direta com a capacidade de formação de capital humano de um país. Essa capacidade só se alcança com a educação de qualidade.
“Se o governo der início hoje a uma política pública de melhoria da qualidade da educação, os impactos serão sentidos em poucos anos, quando os estudantes se transformarem em mão-de-obra ativa”, acrescentou Hanushek. Para exemplificar esse impacto, o professor fez algumas projeções. “Se o investimento tivesse sido feito em 2005, o PIB do país estaria 10% mais alto que o atual em 2025. Isso significa que os ganhos do Produto Interno Bruto (PIB) compensariam todos os gastos com o ensino público”.
O professor lembrou que a eficiência dos sistemas educacionais não está estritamente relacionada ao gasto no setor. “As experiências mostram que não é suficiente só aplicação de recursos financeiros. É preciso ver o que ocorre dentro da sala de aula”.
Maria Helena ponderou essa afirmação: “O gasto não resolve, mas no Brasil ainda está muito aquém. O valor per capita é R$ 1.400 por aluno/ano na educação básica”.
Outro desafio para o sistema brasileiro, de acordo com Menezes Filho, é reduzir os índices de evasão escolar. “Apesar da ênfase na qualidade, temos ainda um problema de acesso, principalmente no Ensino Médio. As pesquisas indicam que há 50% sem acesso, mas as matrículas estagnaram nos últimos anos”.
O professor da USP destacou ainda que o fraco desempenho da elite brasileira no PISA. “Os 5% melhores estudantes da Finlândia estão num patamar bem superior aos 5% do Brasil. Isso mostra que há algo de errado com todo o sistema de ensino”. (Envolverde/Aprendiz) |