A Psicopedagogia para Além do Muro da Escola: Ética, Crítica e Ampliação de Fronteiras
Por - Ivan Carlos Zampin: Professor Doutor, Pesquisador, Pedagogo, Graduado em Educação Especial, Docente no Ensino Superior e na Educação Básica, Gestor Escolar, Especialista em Gestão Pública, Especialista em Psicopedagogia Institucional.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2342324641763252
A escolha de uma profissão é, antes de tudo, um ato ético e político. No caso da Psicopedagogia, esse caráter se intensifica, pois lida diretamente com o núcleo da subjetividade humana, ou seja, o desejo e a capacidade de aprender. Questionar seu papel social, seus objetivos e seus destinos não é um exercício retórico, mas uma necessidade fundante. Mais do que aplicar técnicas, o psicopedagogo assume a responsabilidade de interrogar os processos de aprendizagem que uma sociedade produz e, muitas vezes, patologiza. O código de ética, portanto, não se restringe à conduta profissional, mas estende-se a um compromisso crítico com a desnaturalização dos fracassos educacionais, tradicionalmente atribuídos exclusivamente ao indivíduo aprendente.
A essência da prática psicopedagógica, como apontam reflexões no campo, reside justamente no encontro com o prazer do investigar e do aprender com o outro. Trata-se de uma postura epistemológica que rejeita o diagnóstico estanque e busca, criativamente, "desaprisionar a inteligência". Este é um ato político, ou seja, libertar o pensamento dos casulos da normalização, dos rótulos incapacitantes e das expectativas homogeneizantes que o sistema escolar frequentemente impõe. O psicopedagogo, nessa perspectiva, é aquele que desperta e sustenta a crença no ser humano como um sujeito de possibilidades, mesmo quando ele próprio duvida delas.
Historicamente, a justificativa primordial para a inserção deste profissional centrou-se no espaço escolar, preenchendo uma lacuna sentida que é, a falta de um agente específico para instrumentalizar a comunidade no atendimento às individualidades. No entanto, essa necessária conquista paradoxalmente gerou uma armadilha a qual trata-se da redução da Psicopedagogia a um serviço de apoio dentro e para a escola, principalmente voltado para a educação especial e inclusiva. Essa associação restritiva limita drasticamente o potencial transformador da área. Aprendizagem, não ocorre apenas entre as quatro paredes da sala de aula, ela é um processo contínuo, atravessado por múltiplos contextos. Reduzir o psicopedagogo a um "técnico de dificuldades escolares" é ignorar a complexidade bio-psico-social do aprender. Deste modo, urge ampliar o olhar sobre as atribuições deste profissional. No âmbito escolar, sua atuação crítica vai muito além do atendimento individualizado. Assim, inclui:
- Consultoria e Formação Continuada: Instrumentalizar professores e equipes pedagógicas para a construção de metodologias diversificadas e avaliações processuais, combatendo práticas excludentes.
- Orientação Educacional Coletiva: Desenvolver projetos com alunos sobre métodos de estudo, organização do aprendizado e autoconhecimento como aprendentes.
- Mediação de Conflitos Relacionais: Intervir nas dinâmicas entre alunos, e entre alunos e professores, que impactam negativamente o clima educacional e o processo de aprendizagem do grupo.
- Análise Institucional: Investigar, junto à gestão, os fatores organizacionais, curriculares e relacionais da escola que podem estar gerando ou agravando problemas de aprendizagem em escala.
Fora do ambiente escolar tradicional, o campo de atuação é vasto e desafiador:
- Contexto Hospitalar (Pediatria e Neurologia): Atuar na interface saúde-educação, implementando projetos de Classe Hospitalar ou atendimento psicopedagógico a crianças e adolescentes cuja hospitalização prolongada interrompe o percurso escolar formal, visando a manutenção do vínculo com o aprender.
- Clínicas Interdisciplinares: Integrar equipes com psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais no diagnóstico e intervenção de transtornos de aprendizagem, contribuindo com o olhar específico sobre os processos cognitivos, emocionais e pedagógicos envolvidos.
- Empresas e Organizações (Psicopedagogia Institucional): Diagnosticar e intervir em bloqueios de aprendizagem organizacional, facilitar processos de mudança, capacitação de equipes e desenvolvimento de competências, trabalhando com a "aprendizagem dos adultos" no mundo do trabalho.
- Contexto Familiar: Realizar orientação a famílias, não para culpabilizá-las, mas para torná-las co-partícipes do processo, ajudando a construir um ambiente que favoreça a curiosidade, a autonomia e a resiliência frente aos desafios intelectuais.
- Projetos Socioeducativos: Atuar em ONGs, fundações e programas sociais que atendem populações em situação de vulnerabilidade, onde as dificuldades de aprendizagem são agravadas por fatores sociais e econômicos, exigindo uma abordagem contextualizada e sensível.
Como observado por estudiosos da área, o trabalho psicopedagógico é fundamental justamente por sua capacidade de análise multifatorial. As chamadas "dificuldades escolares" são, na verdade, sintomas. Podem estar situadas na subjetividade da criança, nas dinâmicas familiares disfuncionais, nos métodos de ensino inadequados ou na própria estrutura escolar excludente. Cabe ao psicopedagogo, com seu olhar sistêmico, mapear essas influências, recusando explicações simplistas e medicalizantes.
De tal modo, a Psicopedagogia que se pretende crítica e ética precisa romper o muro da escola. Seu objetivo final não é apenas "consertar" o aluno que não aprende, mas interrogar por que a instituição (seja ela escolar, familiar ou social) frequentemente fracassa em ensinar. É uma profissão que, no seu cerne, luta por uma sociedade mais aprendente, onde o processo de conhecer seja um direito acessível a todos, em todas as etapas e espaços da vida. Seu campo é a aprendizagem humana em toda a sua extensão e complexidade, e sua missão é garantir que esse direito fundamental não seja negado, patologizado ou aprisionado.
Referências Bibliográficas
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