A Psicopedagogia na Formação Docente: Entre a Simplificação Reducionista e o Potencial Transformador
Por - Ivan Carlos Zampin: Professor Doutor, Pesquisador, Pedagogo, Graduado em Educação Especial, Docente no Ensino Superior e na Educação Básica, Gestor Escolar, Especialista em Gestão Pública, Especialista em Psicopedagogia Institucional.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2342324641763252
A Psicopedagogia, ao eleger o processo de aprendizagem humana como seu núcleo epistemológico, posiciona-se como um campo de conhecimento fundamental para a reflexão sobre as práticas educativas. Tradicionalmente compreendida a partir de uma dualidade estrutural a atuação preventiva no âmbito institucional e a intervenção terapêutica no setting clínico, sua contribuição potencial transcende, contudo, a mera aplicação de técnicas remediativas. Um dos terrenos mais férteis e, simultaneamente, mais desafiadores para sua atuação é o campo da formação continuada de professores. Neste espaço, a Psicopedagogia pode incorrer no risco de ser reduzida a um conjunto simplificador de receitas para “alunos-problema” ou, em contrapartida, pode assumir um papel catalisador na transformação crítica da práxis pedagógica.
A formação docente, entendida como um processo permanente de (re)construção de saberes, demanda mais do que atualizações metodológicas pontuais, ou seja, exige uma reflexão profunda sobre os fundamentos do aprender e do ensinar. É precisamente aqui que a interdisciplinaridade constitutiva da Psicopedagogia, conforme apontam teóricos como Bossa (2000), pode oferecer uma contribuição ímpar. Ao integrar contribuições da Psicologia do Desenvolvimento, da Psicanálise, da Linguística e da Sociologia, ela fornece aos educadores lentes para compreender a aprendizagem para além do desempenho acadêmico imediato. Permite analisar as modalidades de aprendizagem dos alunos, os vínculos estabelecidos com o conhecimento e a influência dos contextos familiar, social e institucional na produção do saber. Nesta perspectiva, a formação continuada informada pela Psicopedagogia deixa de focar exclusivamente no “como fazer” para investir no “por que fazer” e “para quem fazer”, questionando os sentidos da educação.
No entanto, uma visão reducionista e instrumental da Psicopedagogia frequentemente a aproxima de um modelo clínico adaptado à escola, onde seu papel se restringe a diagnosticar e oferecer estratégias para alunos com “dificuldades de aprendizagem”. Nessa lógica, criticada por autores como Fernández (2001), a formação docente corre o risco de se tornar um treinamento para identificar patologias e aplicar intervenções padronizadas, isentando a instituição escolar e as próprias práticas pedagógicas de qualquer responsabilidade no fracasso. O professor é transformado em um técnico que aplica protocolos, e a complexidade do fenômeno educativo é esvaziada. Esta abordagem, longe de promover a autonomia do educador, reforça uma dependência de especialistas e uma cultura da medicalização dos problemas escolares.
Para que a Psicopedagogia realize seu potencial transformador na formação docente, é necessário um deslocamento de paradigma. Seu aporte deve ser o de problematizar as certezas pedagógicas, introduzindo a noção de que o não aprender é, muitas vezes, um sintoma que fala sobre a relação do sujeito com o conhecimento e sobre os equívocos do meio ensinante. A escuta psicopedagógica, tal como proposta por Weiss (2004), pode ser um princípio formativo poderoso, a mesma, escuta do aluno, de si mesmo como professor e das dinâmicas institucionais. A formação passa a ser um espaço para analisar casos não visando um diagnóstico patologizante, mas para compreender, de forma contextualizada, os obstáculos epistemológicos e relacionais presentes na sala de aula.
Essa atuação exige do psicopedagogo institucional ou do formador que atue nessa interface uma postura de moderador e não de detentor do saber. Seu trabalho consiste em mediar reflexões que ajudem o corpo docente a olhar para suas práticas a partir da teoria, e para a teoria a partir de suas práticas, num movimento dialético. Conforme pontuam Scoz e outros (2017), a Psicopedagogia institucional deve visar à saúde do processo de ensinar-aprender, promovendo a análise e a transformação das condições que geram sofrimento e bloqueios para professores e alunos.
Em síntese, o lugar da Psicopedagogia na formação docente é um campo de tensão. De um lado, pende para uma atuação limitadora, que a restringe à oferta de ferramentas para gerenciar a diversidade em sala de aula, frequentemente sob uma ótica patologizante. De outro, orienta-se para uma atuação emancipatória, que a coloca como agente de questionamento e qualificação do ambiente educativo como um todo. A escolha por um caminho ou outro não é meramente técnica, mas ética e política. Depende de se compreender a Psicopedagogia não como uma disciplina auxiliar, mas como um campo de pensamento crítico sobre a aprendizagem, capaz de fomentar nos professores uma postura investigativa, sensível e contextualizada, essencial para a construção de uma escola verdadeiramente inclusiva e democrática.
Referências Bibliográficas
BOSSA, N. A. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artmed, 2000.
FERNÁNDEZ, A. Os idiomas do aprendente. Porto Alegre: Artmed, 2001.
SCOZ, B. J. L. et al. Psicopedagogia e realidade escolar: o problema escolar e de aprendizagem. Petrópolis: Vozes, 2017.
WEISS, M. L. L. Psicopedagogia Clínica: uma visão diagnóstica. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.