17/04/2006

A nova educação e o papel das empresas

Por Ricardo Young

Muito mais importante que repassar conhecimento é desenvolver no aluno a capacidade de aprender.

Desde o início da revolução tecnológica, vivemos uma ruptura de paradigmas em vários setores, e o impacto dessas inovações é especialmente sentido na área da educação. Até poucos anos atrás, o profissional da educação era apenas um depositário do conhecimento em determinada área. Sua função era transmiti-lo ao aluno de forma seqüencial e linear, em sessões com hora marcada. Do aluno só se esperava uma atitude passiva e cordata, pelo menos até que atingisse o nível universitário. Se havia alguma reflexão coletiva, era em poucos estabelecimentos cujas propostas de ensino eram mais avançadas, ou em nível de mestrado e doutorado, longe do dia-a-dia das escolas.

Com a popularização da Internet via Web, a partir do início da década de 90, o conhecimento já não é mais um monopólio de poucos, e o professor deixou de ser um guardião do saber. Hoje é impossível alguém deter toda a informação, que pode ser encontrada em toda parte, num fluxo que se constrói e se renova o tempo todo. A rede mundial permitiu que o conhecimento acumulado pelas instituições fosse reunido num único meio, deixando-o à disposição de todos os interessados. Permitiu ainda que esse riquíssimo conteúdo passasse a ser atualizado e renovado permanentemente, o que conferiu à construção do conhecimento uma nova dinâmica.

Essa mudança radical e veloz traz grandes desafios tanto para os alunos quanto para as instituições de ensino. O primeiro deles é que o processo de aprendizado deixa de ocorrer apenas num certo espaço de tempo ou num determinado local, passando a ser contínuo, ininterrupto. Essa nova dinâmica exige que professores e alunos reajam mais prontamente, respondam com maior rapidez.

Outro desafio que se apresenta é a adoção de uma nova postura em relação ao ato de ensinar. O professor se tornou ao mesmo tempo aprendiz e consultor do processo de construção do conhecimento. Na verdade, todas as pessoas passaram a ser potencialmente aprendizes e consultoras desse processo. Assim, professor e aluno estão sendo desafiados a lidar com sua relação de maneira diferente, já que ambos são agentes do conhecimento e essa condição exige outro grau de interação. Essa nova postura imprime uma qualidade diferenciada no processo de aprendizagem, permitindo outras formas de colaboração entre educador e educando, bem como uma maior sociabilização do aluno – caminho para a construção da cidadania.

Segundo o educador Claudio de Moura Castro, da Rede Pitágoras de Belo Horizonte, “quanto mais tempo ouvindo passivamente a aula, menos se aprende”. Em sua opinião, a participação ativa do aluno é essencial: “Educação requer ouvir, falar, ler, discutir, escrever, trocar idéias. Se não são praticadas todas essas atividades, o ensino está aleijado, fica faltando o outro lado. Portanto, não se pode esperar grandes resultados”.

Para a nova educação que se propõe, muito mais importante que repassar conhecimento é desenvolver no aluno a capacidade de aprender. Isso redefine o papel da escola, atribuindo-lhe outros objetivos, entre os quais:
• estimular e aprofundar as habilidades cognitivas do aluno;
• incentivar sua capacidade de discernimento, de trabalhar com processos lógicos e sistêmicos que lhe permitam correlacionar as informações obtidas e distinguir o que de fato é relevante;
• encorajá-lo a buscar seus valores e os da comunidade que o cerca, e a refletir sobre eles;
• desenvolver suas habilidades de comunicação.

Concordamos com o sociólogo italiano Domenico de Masi, autor de obras como O Ócio Criativo e A Sociedade Pós-Industrial, para quem “a escola deve estar sempre se atualizando e acompanhando as mudanças da sociedade. Se o mundo precisa de pessoas criativas, a escola deve estimular esse lado. Não podemos mais continuar formando os jovens apenas para o trabalho e o lucro. É preciso oferecer a formação total”. Para De Masi, formação total significa “educar não apenas para o trabalho, mas também para o estudo e para o ócio; para as satisfações e necessidades mais essenciais do ser humano: o amor, a amizade, a diversão, o convívio, a solidariedade, a beleza. Significa formar o cidadão em toda a sua amplitude de homem econômico, estético, social e ético”.

Portanto, mais do que passar conhecimento, a nova educação forma indivíduos que aprendem a aprender, a tornar-se ativos na busca da informação, utilizando como ferramentas básicas a filosofia, a matemática e outras línguas além de seu próprio idioma. A dimensão filosófica conduz o aluno à lógica formal e ao desenvolvimento de valores, que é a base para a formação da cidadania; a matemática o capacita a operar o pensamento abstrato aplicado na prática; desenvolver a linguagem falada e escrita permite ao educando expressar suas idéias com mais eficácia e entender melhor o que ouve, enquanto o aprendizado de línguas estrangeiras o auxilia a lidar com outras sociedades e outros valores, aproximando-o do mundo globalizado.

É uma educação para o desenvolvimento, que capacita as pessoas continuamente nesse novo conjunto de habilidades.O grande desafio é criar condições para que o educando se aproprie desse novo ferramental e desenvolva sua criatividade, seu senso de observação, tornando-se uma pessoa mais produtiva e realizada. O novo educador é menos responsável pela transmissão de conhecimento e mais pela instigação à investigação filosófica e pelo monitoramento da maneira como o aluno está usando o ferramental colocado à sua disposição. Seu papel é o de navegador do educando na aventura de buscar o conhecimento em toda parte, inclusive na sala de aula. Cabe também ao professor criar condições para que o aluno amplie seu relacionamento, tanto no plano social como no virtual.

Em resumo, uma agenda de educação ideal para nosso país teria de contemplar os seguintes pontos:
• inclusão digital;
• desenvolvimento das habilidades cognitivas;
• capacitação do aluno para sociabilizar-se;
• diversidade cultural e universalidade, incluindo o ensino de línguas estrangeiras;
• reflexão filosófica – capacidade para refletir sobre valores;
• formação da cidadania na concepção clássica, incluindo-se a introjeção de valores como o processo coletivo, a construção coletiva do conhecimento, o intercâmbio e o diálogo, o respeito à diversidade e a compreensão da cidadania como dimensão da própria educação.

A contribuição das empresas

Embora a educação seja por princípio uma atribuição do Estado, a participação da iniciativa privada é extremamente desejável. Como diz Moura Castro, “educação e escola não são assuntos de governo, mas de todos”. Portanto, as empresas, um dos pólos mais dinâmicos e inovadores da sociedade, podem e devem contribuir com o desenvolvimento da educação em nosso país.

Essa contribuição pode se dar de pelo menos duas maneiras: 1) pela formação de seus colaboradores, que concorrerão para a construção do conhecimento de que a empresa necessita; 2) pelo apoio a projetos que beneficiem a educação da comunidade em que a empresa se localiza.

Tornando-se co-responsável pela formação de seus funcionários, a empresa cria condições para que a construção do conhecimento necessário ao seu desenvolvimento seja contínua. O empresário deve compreender que o conhecimento, cujo processo é dinâmico e infindável, deixou de ser um bem que se possa comprar no mercado, pela contratação de pessoas talentosas ou pela aquisição de tecnologia. Na verdade, a evolução do conhecimento passou a se dar de forma dialógica. Devemos nos conscientizar de que apenas contratar talentos prontos no mercado não é a solução. Mais do que isso, é preciso investir no aperfeiçoamento do público interno, com a criação de um espaço para seu desenvolvimento contínuo, que pode ser tão simples como a qualificação de um operário por seu sindicato, ou tão complexo quanto o desenvolvimento de uma universidade corporativa para complementar a formação acadêmica dos profissionais da empresa em sua área de atuação.

Para acumular e atualizar o conhecimento necessário ao incremento de seu desempenho, a empresa pode agir de várias maneiras. A aquisição sistemática de informação em instituições especializadas e a emulação da já mencionada universidade corporativa são exemplos disso. Outra forma de garantir que o conhecimento contínuo se verifique é estabelecer uma nova interatividade com os centros de pesquisa, tendo em vista um princípio lógico mas muitas vezes ignorado: a criação de conteúdo pela universidade é importante para as empresas tanto quanto é importante para as instituições acadêmicas a aplicação pela empresa do conteúdo que elas produzem.

Um exemplo de sucesso de interatividade de empresas com um centro de pesquisas é a verdadeira revolução ocorrida no agribusiness brasileiro nas últimas décadas graças ao fabuloso conhecimento gerado pelas várias unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Dentre as muitas iniciativas de sucesso, destaca-se a inclusão do Cerrado brasileiro no sistema de produção de grãos. Quando a agroindústria passou a utilizar as tecnologias e os cultivares desenvolvidos pela Embrapa, as áreas que compõem o Cerrado se tornaram responsáveis por 41% da produção brasileira de soja, arroz, feijão e milho. A soja, por exemplo, foi plenamente adaptada às condições do país, que se tornou o segundo maior produtor do mundo (58 milhões de toneladas na safra 2003/2004) e é hoje o maior exportador mundial do produto (8,2 bilhões de dólares em 2003).

Apoio à comunidade local

A segunda maneira que mencionamos de se contribuir para o desenvolvimento da educação no país é a empresa agir na própria comunidade de entorno, ajudando a promover condições para que os centros de educação locais cumpram seu papel de forma adequada. Essa participação pode se dar por meio de apoio a organizações não-governamentais que atuem na área da educação. Um exemplo disso é o apoio de empresas à atuação do Comitê para a Democratização da Informática (CDI) em favor da inclusão digital de populações carentes em todo o país. A organização já instalou cerca de 800 unidades de sua Escola de Informática e Cidadania em vinte estados brasileiros e em dez outros países, com mais de 4,1 mil computadores instalados em toda rede, tendo formado mais de 501 mil alunos, com o apoio de 1,7 mil educadores e cerca de 1 mil voluntários.

Outro bom exemplo são as empresas que apóiam o projeto de aceleração de aprendizagem feito pelo Instituto Ayrton Senna para o Estado de Pernambuco, em parceria com a Secretaria Estadual de Educação. A primeira etapa começou em maio de 2003 e engloba 48 municípios pernambucanos. Até 2009, o programa prevê alfabetizar anualmente 20 mil alunos com idade entre 8 a 14 anos, bem como acelerar a aprendizagem de outros 447 mil crianças e adolescentes que acumulam reprovações, reduzindo assim a distorção entre sua idade e a série que freqüentam.

A empresa pode também atuar diretamente nos centros de educação da comunidade em que está instalada, seja criando condições para que esses centros tenham acesso efetivo a recursos, seja treinando professores, por exemplo. Ou estabelecendo parceria com uma escola pública local, desde que essa parceria se dê na área de atuação da empresa. É importante observar esse aspecto, pois somente atuando em sua área de competência a empresa pode agregar valor. Se isso não for possível, é aconselhável não agir diretamente, mas por meio de parceria com uma ONG, como nos casos já citados.

Seja de que modo for, investir nessa nova educação, reestruturada, participativa, estimulante, é preparar cidadãos que irão edificar uma sociedade mais justa e eqüitativa para todos os brasileiros.

Ricardo Young é presidente do UniEthos e do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.


¹. O Despertar do Gigante, Editora Universidade, 2003.
². Entrevista à revista Nova Escola, da Fundação Victor Civita, em outubro de 2000.

Artigo publicado originalmente no livro Investimentos em Educação, Ciência e Tecnologia: o que pensam os empresários, organizado pela UNESCO no Brasil.

UNESCO, 2004
Werthein, Jorge
Investimentos em educação, ciência e tecnologia: o que pensam os empresários / Jorge Werthein e Célio da Cunha – Brasília: UNESCO Brasil, 2004. p. 195

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