A meta é captar recursos
Por André Augusto Castro
O novo decano de Pesquisa e Pós-graduação da Universidade de Brasília (UnB), Márcio Martins Pimentel, mudará a linha de atuação do decanato. A orientação recebida do futuro reitor Timothy Mulholland é aprofundar as ações de captação de recursos, principalmente internacionais, para que haja maior investimento na área. Para isso, Pimental contará com o apoio do atual decano, Noraí Rocco, que assumirá a Assessoria de Assuntos Internacionais (INT) da universidade.
Entre as missões de Pimentel à frente do Decanato de Pesquisa e Pós-graduação (DPP), estão a informatização da gestão e a simplificação de rotinas para facilitar o trâmite de processos e reduzir a quantidade de papel circulando pela instituição. Pimentel pretende ainda aprofundar as relações da UnB com órgãos de fomento como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para que a UnB tenha mais representantes nos comitês de avaliação dos órgãos.
Além disso, o novo decano quer incentivar o aumento de qualidade nos programas de pós-graduação. Embora garanta que não deixará de lado aqueles que já têm níveis de excelência, investirá mais nos cursos que precisam crescer e que tenham a possibilidade de abrir doutorado. Pimentel também pretende trabalhar para que o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) seja fortalecido, incentivando a expansão da atuação de estudantes voluntários. Ele assumirá o cargo no dia 14 de novembro e recebeu a equipe da UnB Agência para falar sobre seus projetos. Confira.
UnB AGÊNCIA – O que se pode esperar de inovação para a nova gestão do DPP?
MÁRCIO PIMENTEL – O que temos discutido – e isso não é só para o DPP e sim para a nova administração – é uma atuação um pouco mais agressiva na parte de captação de recursos. A pesquisa é uma das atividades da universidade que mais consomem verbas e temos uma série de idéias de ações para incrementar a entrada de recursos destinados a ela. Nesse aspecto, pretendemos ampliar laços da universidade com organismos internacionais, com visitas a parceiros em outros países e fazendo viagens prospectivas para buscar novos contatos. Boa parte da nossa energia será focada para isso.
UnB AGÊNCIA – A UnB recebe muitas visitas e delegações internacionais. A universidade passará a ter essa característica de se lançar para fora?
PIMENTEL – Essa é a idéia do professor Timothy Mulholland, inclusive para o DPP. Tanto que já existe uma certa ‘aliança’ entre o decanato e a Assessoria de Assuntos Internacionais (INT). O professor Noraí Rocco, que sai do DPP, tem conhecimento profundo da área e foi designado para a INT exatamente com a meta de fortalecer o elo entre as duas instâncias de forma que possamos ser um pouco mais agressivos, inclusive no âmbito da América do Sul. Vamos aprofundar as parcerias com a União Européia porque há muito dinheiro para a pesquisa lá. Os argentinos são muito bons nisso e aproveitam suas ligações com a Espanha, mas nós ainda somos muito tímidos nesse campo. Mas não vamos deixar nossa posição de liderança no Centro-Oeste e no Norte, por exemplo.
UnB AGÊNCIA – Além da administração voltada para a captação, quais serão as características do novo DPP?
PIMENTEL – Nas últimas duas gestões, a pós-graduação da UnB se caracterizou por um crescimento espantoso, talvez um dos maiores do país. Não sei se podemos manter esse ritmo até por limitações de espaço, quadro docente e outros fatores. Agora temos de crescer de outra forma. Vamos fazer todos os esforços para que os cursos melhorem suas avaliações, além de incentivar aqueles que têm mestrado a abrir o doutorado. Existe um espaço grande ainda para essa ação de verticalização. Isso é possível porque não é necessário grande aporte de recursos e o quadro docente é o mesmo: quem dá aula no mestrado pode fazê-lo também no doutorado. Mais importante que isso é a busca pela qualidade. Aqueles cursos que já atingiram níveis altos de excelência devem manter o desempenho e continuarão a receber atenção, mas nosso foco é investir naqueles programas que ainda não chegaram ao ápice. Pretendo visitar os programas para ver in loco as dificuldades existentes e as necessidades. Essa atenção passa, inclusive, pela alocação de recursos. Quem mais precisar receberá mais investimentos.
UnB AGÊNCIA – O DPP mantém praticamente a mesma estrutura para cuidar de uma área que cresceu demais. Como o senhor pretende equacionar esse problema?
PIMENTEL – Sabemos que há uma limitação de recursos para lidar com isso imediatamente, mas já estamos pensando em alternativas, como a criação de uma nova diretoria responsável por cuidar especificamente da captação de recursos, em especial os internacionais. Não há ninguém no DPP que faça isso até porque a equipe está sobrecarregada. Precisamos de algumas pessoas a mais para integrar a equipe. Não podemos fazer muito mais do que isso porque o decanato tem uma estrutura física muito acanhada. Falta até espaço e esse é um ponto que já foi conversado com o futuro reitor para ser resolvido.
UnB AGÊNCIA – Como funcionará a nova gestão do DPP?
PIMENTEL – Primeiramente, pensamos em fazer um planejamento estratégico para o DPP, mas, para tanto, talvez precisemos contratar uma equipe e dependeremos de recursos para isso. Esse é um esforço de planejamento, recursos humanos e qualidade do trabalho, que deverá orientar a formulação de toda a política do decanato, inclusive para o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI). Pretendemos simplificar o trâmite dos processos e informatizar a gestão. Nós usamos uma quantidade enorme de papel e ninguém mais faz isso no mundo. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) não tem mais isso. Podemos até copiar modelos já usados com sucesso, de forma que todos recebam por computador os processos para que tudo fique mais ágil. Obviamente isso passa também por uma mudança na estrutura e no desenvolvimento de sistemas específicos.
UnB AGÊNCIA – O que mais deve mudar?
PIMENTEL – Um outro aspecto que nos chama a atenção é o trabalho da Câmara de Pesquisa e Pós-graduação. Acredito que ela deva ser o órgão principal do decanato, mas, da forma como funciona hoje, está sobrecarregada de processos e coisas que poderiam ser decididas nas unidades acadêmicas. Em minha visão, esse não é o escopo de ação. A câmara deveria funcionar mais para discutir temas fundamentais, formular políticas e acompanhar mais de perto os programas de pós-graduação da universidade. Esse é um tópico em que vamos atuar bastante. Não queremos mais tanto controle, e sim avaliações mais constantes e efetivas internamente. Não é a questão de não ter controle algum, apenas de garantir que não haja estrangulamento das atividades.
UnB AGÊNCIA – Existe orientação de aumentar a interação com os órgãos governamentais aproveitando a localização privilegiada da UnB perto do poder?
PIMENTEL – Sim. Nós trabalhamos muito longe da Capes e os programas de pós-graduação da universidade não sabem exatamente o que esse órgão espera deles. A idéia é aproximar a gestão do DPP com os cursos e programas e também com os consultores da Capes. Ainda falta um pouco de contato entre o órgão que nos avalia e a UnB. Há uma queixa geral de que Brasília é mal representada nesses órgãos de fomento à pesquisa e ao ensino. Nós, na UnB, temos um representante de área (chefe do comitê de avaliação de determinada área) e eu, que sou representante adjunto da área de geociências. São apenas duas pessoas em posição de comando. Fala-se muito em estreitar essas relações com a Capes e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para que Brasília e a UnB tenham representação compatível com seu status.
UnB AGÊNCIA – Essa atuação política é importante para a universidade?
PIMENTEL – Fundamental. É uma questão de marcar presença e principalmente de buscar reconhecimento das qualidades das pessoas da UnB e da instituição como um todo. É preciso mudar um pouco o eixo de atuação desses órgãos de fomento a partir da inclusão de atores de outras regiões. A Universidade de São Paulo (USP) figura na lista como única universidade brasileira entre as 200 melhores do mundo. Isso acontece em função do dinheiro disponível e investido lá. Quanto mais recursos, mais resultados. Essa orientação de buscar captação não é para a UnB ficar rica, mas sim para melhorar cursos, instalações, laboratórios e a universidade como um todo, tanto no Distrito Federal como nacionalmente. Precisamos de dinheiro não só para manter os laboratórios funcionando, mas atualizados e com equipamentos e instalações novos.
UnB AGÊNCIA – Como a UnB pode contribuir para a consolidação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF)?
PIMENTEL – O problema da FAP é que a lei nunca foi cumprida e, quando isso acontece, há pouco o que possamos fazer. Lembro-me de seminários aqui na UnB sobre a fundação, com idéias e análises. Tudo que a UnB pode vir a fazer depende de uma ação política. Temos de mostrar com números e dados aos nossos legisladores e governantes o potencial da FAP. Brasília tem força para ser a capital do conhecimento, mas para isso precisa aproveitar suas vocações. Podemos ser um pólo de C&T, mas não de indústria pesada, por exemplo. Temos vocação para o desenvolvimento do conhecimento e ter uma FAP forte é fundamental para consolidar essa característica. É um órgão regional que pode complementar ainda mais os recursos.
UnB AGÊNCIA – O DPP estará mais próximo das unidades acadêmicas?
PIMENTEL – Essa é uma necessidade que foi muito debatida ao longo do período de formulação do plano de gestão do professor Timothy. Há uma distância um pouco grande entre o decanato e os programas, em função da própria limitação estrutural do DPP. Faremos esforços para agregar pessoas ao decanato para que possamos atender às demandas de forma mais efetiva e direta. Em outras universidades, existem setores de orientação sobre elaboração de projetos, prestação de contas, encaminhamentos, mas não temos isso na UnB. Essa é uma de nossas intenções. A proximidade do decano e de seus diretores com os programas de pós-graduação é fundamental para a universidade.
UnB AGÊNCIA – O senhor tem planos para expandir o Pibic?
PIMENTEL – O programa já cresceu demais nesses últimos anos e acredito que o caminho para futuras expansões é abrir mais espaço para os estudantes voluntários. Não sei se já funciona a concessão de créditos para os voluntários, mas essa pode ser uma área para atuarmos. O Pibic é muito importante e é nítida a possibilidade de estimular vocações precocemente.