A língua portuguesa ganha espaço interativo de valorização
Por Cristiane Capuchinho
A estação de trem é um lugar de encontros, de trânsito, de mudança. Construída há mais de um século, a plataforma da Luz desde sua inauguração marca o cruzamento entre pessoas das mais diversas origens: imigrantes, migrantes, trabalhadores rurais, trabalhadores da periferia. Para seus milhares de transeuntes diários, como anunciaria Manuel Bandeira, a vida vinha pela boca do povo na língua errada do povo, língua certa do povo. É nesse local metáfora das trocas culturais que, a partir desta terça (21), entra em funcionamento o Museu da Língua Portuguesa.
Primeiro no mundo a debruçar-se sobre a história de um idioma, o museu aproveita todo o potencial vivo da língua, recipiente de mutações e ampliações diárias, e a apropriação da tecnologia para o aprendizado e a conservação pressuposta nesse tipo de instituição. As atividades audiovisuais e interativas do museu rompem com a expectativa tradicional, enquanto a proposta de mostrar a língua portuguesa como organismo vivo repleto de variações de semelhante importância quebra com o mito disseminado e, muitas vezes, amedrontador da gramática normativa. “O povo deve aprender que também a língua pode ser objeto de indagação”, indica Ataliba de Castilho, professor de lingüística na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
O projeto do museu, concebido em 2001, foi realizado pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo e pela Fundação Roberto Marinho com verbas da iniciativa pública e privada. Na elaboração do conteúdo, a USP teve ampla participação com seus pesquisadores.
Os limites da minha língua são os limites do meu mundo
Os andares superiores da Estação da Luz guardam um espaço de mergulho e reflexão nas questões do idioma brasileiro, espelho das problemáticas de um país construído pela variedade e desigualdade. Para entrar nesse espírito de meditação crítica, o visitante dá início à sua aventura por um elevador panorâmico onde Arnaldo Antunes entoa um mantra com os vocábulos “língua” e “palavra” em diferentes idiomas.
No terceiro andar do prédio, a recepção é feita em um auditório com um filme abordando o fenômeno da linguagem, desde seu aparecimento e a arquitetura da visão de mundo à imagem da língua portuguesa como ponto de comunhão entre os habitantes dos inúmeros “Brasis”.
O primeiro filme insere o espectador no rico
mundo da linguagem.
Após esta primeira apresentação, na Praça da Língua uma compilação da cultura brasileira é exposta em uma projeção no teto que ilustra a leitura de textos e canções. A coletânea, feita pelos professores José Miguel Wisnik (USP) e Arthur Nestrovski, mistura escritos de autores como Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos, com o cancioneiro popular, bem representado por artistas como Caju e Castanha e Luiz Gonzaga. Sob os pés, o chão é iluminado – em seu duplo sentido – por excertos de pérolas da nossa literatura.
A mescla entre falares continua na Grande Galeria. A reprodução simultânea de onze filmes temáticos é produto da colagem de discursos cultos, regionais e de grupos específicos. Em nenhum momento há a preocupação com o “certo” e “errado” gramaticalmente, já que a idéia é de mostrar o processo de transformação de uma língua. O professor Ataliba de Castilho, que também participou da elaboração dos roteiros, diagnostica essa distinção bipolar como o principal equívoco do ensino da língua nas escolas, “Certo e errado são pontos de chegada e não de partida. O processo de assimilação e compreensão das regras é o mais importante”.
Salvação individual
E daí por diante, o que poderia haver de contemplativo no museu acaba. Provocações feitas, o espaço propõe que cada um tenha uma experiência única guiada por seus interesses. No espaço Palavras Cruzadas, oito totens representam idiomas que contribuíram para a formação da variante do português falado no Brasil. Em cada um desses baluartes há um monitor com palavras do nosso cotidiano originadas em outros idiomas. O monitor sensível ao toque permite a navegação entre significados das palavras de diversas origens idiomáticas e as respectivas culturas.
À direita do grande salão, a história da língua portuguesa de variante brasileira é contada. Desde 4.000 a.C, com o surgimento da língua indo-européia, mãe do latim e, por conseguinte, do nosso português. A Linha do Tempo segue por milhares de anos até o momento atual de policentrismo cultural, com a apresentação das diferenças regionais na linguagem do brasileiro. Além da exposição gráfica, o visitante poderá se aprofundar em qualquer assunto através de monitores que podem ser consultados ao longo do caminho.
Já chegando ao fim do espaço permanente, a curiosidade sobre a língua é despertada de maneira lúdica. O Beco das Palavras é um espaço de jogos com a criação de palavras, o visitante terá ali uma série de recortes de palavras que, ao serem montadas propriamente, darão explicações sobre sua etimologia. Programado com palavras comuns, a brincadeira pretende despertar o interesse de todo público, crianças e adultos, para a história por trás dos termos.
Itinerante sertanejo
Bia Lessa convida o espectador à
mudança de sua perspectiva tradicional
O espaço do museu também abrigará mostras temporárias. A primeira delas contempla o aniversário de 50 anos do lançamento de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A exposição montada pela diretora teatral Bia Lessa pretende introduzir o visitante no mundo inovador de Guimarães Rosa, propondo uma mudança de perspectiva no olhar cotidiano. Em conformidade com o museu, aqui o espectador também deve ser ativo e participar da obra para que a imersão se realize.
Serviço
Museu da Língua Portuguesa
Estação da Luz – Praça da Luz, s/n° - São Paulo.
Aberto de terça a domingo, das 10h às 18h.
Ingresso a R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia entrada).
http://www.estacaodaluz.org.br