A Legitimação do Poder por meio do Apagamento da História
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
A Câmara dos Deputados de Minas Gerais apresentou um projeto vetando o termo “ditadura militar” [1], e trechos sobre direitos indígenas. Essas e outras adulterações pontuaram suas intervenções, desqualificando profissionalmente os pesquisadores envolvidos. Apesar da narrativa falaciosa proferida pelo deputado responsável pela comissão, esse fato explicita a mais abjeta intenção: além da censura, o apagamento da história, que é um método utilizado para o controle político, social e ideológico do presente.
A opinião pública é algo que pode ser moldada. Grupos hegemônicos, instituições ou regimes autoritários, tendo ciência deste recurso, ocultam ou suprimem eventos passados de forma a garantir a manutenção do poder e sua perpetuação sem sofrer resistências. É uma estratégia de legitimação do poder e de narrativas únicas, já que as contradições são apagadas. As violências e os erros do passado criam um discurso de passado mítico e idealizado, validando o autoritarismo presente como algo benéfico, necessário e incontestável para a evolução do país.
Trata-se de uma desarticulação da consciência crítica e da identidade, já que serão subtraídos do cidadão instrumentos intelectuais para identificar padrões de opressão. Sem referência histórica, a população perderá a capacidade de perceber as estruturas sociais e ficará sem discernimento para criticar o status quo, tornando-se, concomitantemente, vulnerável à manipulação como massa de manobra. Isso fomenta a neutralização de qualquer tipo de resistência, bem como a consolidação da impunidade, já que os rastros de injustiças serão apagados. É uma forma de isentar os opressores e seus herdeiros políticos da responsabilidade histórica e jurídica, pois, com a ausência de memória das lutas sociais, extingue-se o senso de urgência por reparação.
Como visto, a estratégia desse veto, que tenta se camuflar sob o pretexto de adequação editorial, pacificação social ou neutralidade educacional, explicita a manipulação da história e favorece a repetição do passado. A perda da memória coletiva removerá alertas sociais contra erros, injustiças e barbáries já vivenciadas. Por isso, já dizia George Santayana: “quem esquece o passado é condenado a repeti-lo”. Os parlamentares que vetaram esta obra são os mesmos que flertam com o golpismo. Será tudo uma coincidência?
[1] https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/politica-e-poder/camara-veta-termo-ditadura-militar-e-propoe-cortes-em-livro-sobre-independencia/
https://pro-memorias.org.br/memoria-coletiva/camara-veta-ditadura-militar-em-livro-sobre-a-independencia/