A História por Trás da História
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
A professora de história da arte Daniela Viana, em seus vídeos, ajuda na descoberta das histórias humanas por trás das obras, lugares e movimentos que moldam o mundo. Uma obra que merece atenção devido à realidade presenciada por muitos está relacionada a Pinóquio, o personagem de madeira que tenta virar humano. Ele tem um companheiro, o Grilo Falante, que tenta auxiliá-lo nesta conquista, mas que quase sempre se sente frustrado devido à impulsividade do personagem e das mentiras que fazem seu nariz crescer.
Segundo Daniela Viana[1], a história narrada por Walt Disney não é a verdadeira. Isso porque o verdadeiro Pinóquio não foi escrito como um conto de fadas inocente, não tem relação com fantasia e tampouco com a desobediência. A obra original foi criada pelo jornalista político Carlo Collodi, em Florença. Trata-se de uma forma de demonstrar pertencimento com forte viés político, isso porque o escritor, ao publicar a história em um jornal infantil italiano em 1881, demonstrava todo o caráter impulsivo, irresponsável e com muitas contradições do personagem.
Segundo a pesquisadora, a Itália tinha se tornado um país recentemente; isto é, como nação unificada, tinha menos de 20 anos e, até então, ela era um conjunto de regiões separadas, com dialetos, culturas e histórias diferentes, de modo que essas pessoas não se reconheciam como parte de um único povo. É interessante observar nas falas da pesquisadora que o autor de Pinóquio havia lutado nas guerras que originaram a independência da Itália e viu a dificuldade para criar uma identidade nacional, já que a recém-criada nação não trazia consigo uma identidade que ligasse o povo.
O objetivo do jornalista político não era o entretenimento, e sim a formação cidadã — a formação do verdadeiro cidadão italiano, que tivesse responsabilidade, consequência e pertencimento. A humanidade do Pinóquio estava em aprender a existir no meio de um povo que estava se descobrindo. Este livro é a alegoria da construção nacional, cujos caminhos cheios de tentações, punições e desvios representavam justamente a realidade dos italianos, mas que seriam trilhados com sucesso por meio da disciplina coletiva. Tanto que o livro foi adotado pelas escolas públicas italianas, isso porque o contexto era de pessoas buscando entender o que era ser italiano.
Observe que, em 1940, a Disney mudou drasticamente a história do Pinóquio. Seu viés político e sua forte crítica social foram ressignificados pela empresa, romantizando o personagem sob a ótica de valores liberais e individualistas estadunidenses. Vale ressaltar que, na época em que a Itália estava sendo criada, a justiça para o povo era vista como ferramenta de opressão das elites contra os pobres, tanto que policiais e juízes eram corruptos, retratando a realidade daquele contexto.
Educar está além de observar uma arte, ler uma história e compreender seu enredo. Está em entender o contexto de quem fez a arte ou a obra e puxar para a realidade fazendo uma comparação. Do mesmo jeito que a filosofia nos permite divagar sobre a realidade, a arte também cumpre esse papel[2].
[1] https://www.facebook.com/reel/2479565259201312
[2] Para aquisição de exemplares, palestras ou contatos institucionais, por favor, envie uma mensagem diretamente para o e-mail wolmertavares@gmail.com ou acesse os canais de atendimento das redes sociais: Facebook (wolmerricardo.tavares) ou Instagram (@wolmertavares).