11/04/2011

"A gente não vai guardar de lembrança", diz pai sobre mochila de estudante morta no Rio

A família da estudante Larissa do Santos Atanázio, 13, compareceu nesta segunda-feita (11) à escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, para buscar a mochila da menina que foi morta na última quinta-feira (7) pelo atirador Wellington Menezes de Oliveira, 23. Segundo o irmão da vítima, Felipe do Santos Atanázio, 17, o material não estava no colégio.

“A gente não está achando”, afirmou. A informação que a escola passou à família é de a mochila poderia estar destruída e eles se desfizeram do material. “Eu queria ver a mochila para ver se ela deixou alguma coisa escrita, algum sonho a ser realizado”, lamentou Felipe. Maia tarde, o pai da vítima, Robson Atanázio, afirmou que uma amiga da família, que é estagiária da escola, recolheu o material. "A gente não vai guardar de lembrança, tem sangue dela ali, mas não sabemos o que vamos fazer."

O irmão contou que a única vez que mexeu nas coisas da irmã desde o dia do crime foi quando pegou as roupas que ela usaria no velório. “Achei duas camisas do Vasco. Ela era vascaína doente, frenética. Uns dias antes, ela estava vendo o jogo do Vasco contra o ABC de Natal e delirava com a ‘virada’ do Vasco”, lembrou o irmão.

Felipe entrou pela primeira vez na escola onde a irmã foi morta nesta segunda-feira (11). “Acho que estou anestesiado”, afirmou sobre rever o local do crime. Ele contou ainda que o celular da menina foi encontrado pelo Corpo de Bombeiros e devolvido ao avô ainda na quinta-feira (7). Os primeiros pais de alunos da escola começaram a chegar na manhã desta segunda-feira (11) para buscar as mochilas deixadas para trás pelas crianças durante o massacre.

A supervisora de vendas Simone Ferreira, 38, mãe da estudante Juliana, 15, foi uma das primeiras a chegar. A menina estava na sala 1.803 do sétimo ano, a primeira a ser invadida pelo atirador Wellington Menezes de Oliveira, 23. “Ela está ansiosa para ver o material”, contou a mãe. Segundo Simone, Juliana ainda está abalada com o episódio e não quer voltar à escola. “Ela está acabada, não quer tocar no assunto, perdeu a amiga Samira [Pires Ribeiro, 13, uma das alunas mortas pelo atirador]”, disse. A menina recebeu assistência psicológica durante o final de semana. Outro que esteve no local foi o pai de Renata Lima Rocha, 13, uma das crianças feridas que recebeu alta na sexta-feira (8). Nílson da Rocha não quis falar com os jornalistas, mas deixou a escola carregando a mochila branca de corações cor de rosa de Renata.

Renato da Cunha, pai de Roger, 15, e Rodrigo, 11, também conseguiu resgatar a mochila perdida no dia do atentado. O filho mais velho estava na sala invadida por Oliveira. “A limpeza não tira da memória”, disse. “Não vou nem levar a mochila agora para casa. Vou tirar o material e jogá-la no lixo, porque tem mancha de sangue”. Segundo ele, os filhos não querem voltar a estudar na escola, estão com dificuldades para dormir e vão precisar de acompanhamento psicológico. Mesmo assim, ele pretende que eles retornem às aulas aos poucos. “Eles não querem voltar de jeito nenhum. Não querem nem passar na rua aqui perto. É triste, é muito difícil, mas tem que passar por cima da tragédia e trazê-los para a escola para voltarem a estudar. Quero que eles continuem, porque é uma das melhores escolas da região. Tem segurança melhor que a maioria das escolas daqui”, disse o pai.

A pensionista Lúcia Maria Teixeira Santana, 61, avó da aluna Caroline Teixeira da Costa, contou que a neta "está à base de calmante". "Ela viu as amigas [Samira e Bianca Rocha Tavares] morrerem e não quer voltar para a escola”, contou . Lúcia disse que vai levar a mochila para a neta, mas acha que “ela nem vai querer ver”. “Tem que começar a amenizar essa história porque está embaralhando a cabeça das crianças”, afirmou.

Roselene Josino Francisco, 32, mãe de Juliana Marques, 13, resumiu: “Ela disse que se estivesse a mochila estivesse suja de sangue ela não queria nem ver. Mas não está suja não."

A mãe ficou extremamente abalada de entrar novamente na escola. “Ela disse que não quer mais estudar aqui, mas não consigo pensar nisso agora. Só quero ficar perto dela. Eu sempre trago e busco, nunca a deixo sozinha”, lamentou.

O aluno Macks Gerbatin, 12, estava feliz de ter sua mochila de volta. “Foi bom voltar à escola. Quero continuar estudando aqui. Já estava tudo limpinho”, disse o aluno do sétimo ano.

"É um clima meio estranho. A gente sempre entrava rindo na escola, e agora estava um clima meio estranho”, contou o estudante do nono ano Thiago Mota, 14, que veio até a escola para buscar a mochila do primo Renan, que presenciou o crime e não quis passar pela região. “Eles limparam todo o material, então não tem nada de sangue”. Apesar da tragédia, o menino pretende voltar a estudar na escola. “Eu quero voltar porque isso pode acontecer em qualquer lugar, e se acontecer de novo pelo menos eu estou perto de casa."

Já a aluna Bruna Vitória Lopes Maia, 14, definiu: “É muito difícil entrar em um lugar onde antes só tinha alegria e sorrisos e hoje só tem tristeza”, disse.

Pedidos de transferência

Dois responsáveis também foram à escola pedir a transferência dos netos, mas ouviram do porteiro que talvez não fosse possível conseguir o documento nesta segunda-feira. Ubiratan Soares, 65, disse que a neta, que estuda na Tasso da Silveira à tarde, não quer mais entrar no colégio e que por isso foi pedir a transferência da menina. “Ela não quer mais voltar para essa escola. Ela não consegue dormir, fica vendo televisão a noite toda”, desabafou.

Ana Maria Alves Pinheiro também foi hoje de manhã à escola pedir a transferência da neta de 13 anos e que, apesar de estudar à tarde, conhece as vítimas da tragédia. “Ela está muito perturbada, fica chorando o tempo inteiro. Ela não dorme, ri à toa. Ela não está bem. A gente está precisando de um psicólogo”, declarou.

Limpeza

Oito funcionários da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) e 30 funcionários da escola municipal Tasso da Silveira trabalham desde as 7h desta segunda-feira (11) para limpar o local onde as 12 crianças foram  mortas. Segundo as pessoas que deixam a escola, ainda há muito sangue.

* Com informações da Agência Brasil

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