A Fome tem Memória, História e Vontade Política
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
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Nelson Mandela, em uma campanha contra a pobreza realizada em 2005 na Trafalgar Square, em Londres, afirmou que “a pobreza não é natural. Ela é criada pelo homem e pode ser superada pela ação dos seres humanos”. Décadas antes, em 1994, o sociólogo Herbert de Souza (Betinho)[1], em entrevista concedida no livro de Rodrigues, fizera uma afirmação complementar: “a alma da fome é política”. Isso ocorre porque a fome representa todo tipo de exclusão — da terra, da educação, do emprego, da dignidade, da economia, da cidadania e, principalmente, da vida. Ela se traduz no atestado da miséria absoluta; no exílio da própria terra.
A fome tem memória e história, elementos registrados com crueza no livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus[2]. Em sua obra, a autora afirmava que um dos maiores sofrimentos na favela (hoje chamada de comunidade) era ter que passar o dia inteiro pensando apenas no que iria comer no almoço e no jantar, transformando a existência em uma luta repetitiva e desesperadora. É por essa razão que ela sentenciava: a fome também é professora.
Carolina via os governantes distantes da realidade de seu povo. Denunciava que as autoridades, em seus gabinetes luxuosos, não conseguiam enxergar a urgência e a dor de quem não tinha o que comer. Ela ressaltava que a experiência da miséria moldava o caráter e a empatia de um indivíduo, percepção que deu força à sua célebre fala: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças.”
Vale observar que, no contexto em que Carolina Maria de Jesus escreveu seu diário, o país tinha uma população de cerca de 70 milhões de habitantes, e estima-se que entre 40% e 50% dela viviam em condições severas de privação — sem acesso a saneamento básico, saúde, educação formal e alimentação regular.
Anos mais tarde, a fala da escritora ganhou contornos reais quando o país elegeu um presidente que conheceu a fome na infância, aprendeu com a miséria e, em momento algum, esqueceu sua origem e sua consciência de classe. Antes de seu primeiro mandato, o Brasil encontrava-se inserido no Mapa Mundial da Fome, de acordo com indicadores e relatórios históricos de órgãos como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
A realidade daquela época apontava que mais de um a cada dez brasileiros enfrentava a privação crônica de calorias diárias necessárias para uma vida saudável. Foi por meio das políticas públicas de segurança alimentar implementadas que o governo conseguiu retirar o país desse indicador degradante. Recentemente, ao retornar ao poder, a priorização dessas mesmas agendas sociais recolocou o país no caminho para superar novamente o fantasma da subalimentação crônica.
Nota-se, portanto, que combater a fome é, fundamentalmente, uma questão de vontade política. Um governo que enxerga a educação de qualidade como o braço forte para combater a miséria é um governo que verdadeiramente acredita no desenvolvimento de seu país. Afinal, a educação atua diretamente nas causas estruturais da pobreza, rompendo o ciclo de vulnerabilidade que se perpetua por gerações.
Como bem dizia o sociólogo Herbert de Souza, “acabar com a fome não é só dar comida, e acabar com a miséria não é só gerar emprego; é reconstruir radicalmente toda a sociedade”. Uma vez que essa reconstrução social é balizada por uma educação de qualidade, cabe a nós, docentes, trabalharmos continuamente por uma prática pedagógica que prime pelo discernimento, pela autonomia intelectual e pela efetiva busca do conhecimento.[3]
[1] RODRIGUES, Carla: Ética e Cidadania. São Paulo, Moderna, 1994 (Herbert de Souza)
[2] JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10. ed. São Paulo: Ática, 2014.
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