04/09/2026

A Filosofia como Engrenagem da Metacognição

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Existe um famoso ditado popular que diz: “todo dia saem de casa um malandro e um otário; quando os dois se encontram, sai negócio”. No entanto, esse ditado precisa ser reescrito, porque, na verdade, saem um malandro e vários “otários” desprovidos de autonomia intelectual e — por que não afirmar? — com preguiça cognitiva.

Hoje, muitos que tentam impressionar usam o termo "metacognição" na tentativa de ludibriar uma massa que assiste a tudo sem o mínimo de senso crítico, sem perceber que o conceito de metacognição é, essencialmente, a capacidade humana de pensar sobre o próprio pensamento.

Jou e Sperb (2006)[1] complementam essa ideia ao elucidar que a metacognição é o conhecimento que o sujeito tem sobre eventos cognitivos, possuindo uma forte relação com a consciência reflexiva. Sendo assim, apesar de esse conceito ter sido cunhado na década de 1970 por John Flavell, psicólogo estadunidense, a prática já era conhecida e exercida há mais de 2.400 anos pelo filósofo Sócrates. Essa abordagem era a engrenagem central de sua filosofia, e sua principal máxima, “só sei que nada sei”, servia justamente como um monitoramento cognitivo.

Ao balizarmos a psicologia cognitiva com a filosofia, percebemos que o primeiro passo da metacognição é o autoconhecimento, que instiga a autoverificação. Ou seja, trata-se de perceber o que se sabe e quais são os próprios limites. Por isso, Sócrates afirmava que sua única sabedoria consistia em notar o quanto precisava aprender mais, o que implicava um diagnóstico preciso de sua própria mente.

Enquanto muitos se consideravam sábios, embasados pela ilusão de competência, Sócrates tinha plena consciência metacognitiva de sua ignorância. Para ele, uma das formas de buscar cada vez mais conhecimento era por meio do diálogo consigo mesmo e com os outros, forçando seus interlocutores a também buscarem a metacognição.

Um ponto interessante e despercebido por muitos na época é que Sócrates fingia ignorância e fazia perguntas retóricas para que o discípulo ou interlocutor percebesse as contradições do próprio pensamento. Ele não entregava respostas prontas; elas eram frutos do próprio discernimento do sujeito, por meio de uma reflexão validada com base nos critérios, preconceitos e fundamentos usados para formular as opiniões originais.

Sabendo que a metacognição trabalha com o conhecimento cognitivo (saber o que se sabe e o que não se sabe), a regulação cognitiva (monitorar e corrigir o rumo do pensamento) e a avaliação (análise aprofundada sobre o resultado do processo de aprendizagem), os passos no método socrático correspondem a:

  • Consciência da ignorância: ilustrada pela famosa frase “só sei que nada sei”;
  • Refutação: momento em que o indivíduo identifica as falhas lógicas no próprio argumento durante o debate;
  • Exame da própria vida: pois, segundo a linha socrática, uma vida não examinada não merece ser vivida.

Dito isso, pode-se perceber que Sócrates foi um dos maiores treinadores metacognitivos da história, ensinando-nos a pensar sempre de forma crítica sobre a estrutura do nosso pensamento.

Dessa forma, não precisamos ser prolixos e tampouco pernósticos com nossos colegas de profissão. Basta usarmos a essência da filosofia para fazer com que nossos alunos reflitam sobre o próprio pensamento, afastando qualquer forma de preconceito para que descubram a verdade por si mesmos.

 


[1] JOU, G. I. DE .; SPERB, T. M.. A metacognição como estratégia reguladora da aprendizagem. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 19, n. 2, p. 177–185, 2006.

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