05/03/2026

A Engrenagem da Exclusão: Educação e Elitismo Histórico

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Embora alguns professores busquem trabalhar o senso de equipe em seus alunos, na vida impera a competitividade. Chega a soar como hipocrisia quando um educador afirma ser errado preparar o aluno para a competição, esquecendo-se de que, na vida, uma das únicas constâncias é a própria disputa.

Compete-se por uma vaga em uma empresa e, quanto melhor o cargo, maior a concorrência. Compete-se para ingressar em uma universidade pública, em concursos públicos e até em relacionamentos. Em suma, quase tudo se baseia em alguma forma de competição. Na verdade, o erro não reside em lidar com ela, mas em banalizar sua importância e negligenciar o senso de ética, visto que toda competição deve estar fundamentada nesse princípio.

Uma forma de perceber essa competitividade é por meio do elitismo histórico-cultural, o que o jornalista César Calejon denomina “gramática da desigualdade”. O termo refere-se a uma força social que estrutura a sociedade por meio de categorias de distinção. Percebe-se que essa elitização é mantida ao longo do tempo, sustentada pelos pilares da hierarquia moral, das origens históricas e da reprodução da desigualdade.

Cabe pontuar que essa gramática normaliza a exclusão e a subalternidade no país. Ela não se limita à renda, mas insere-se na estrutura de distinção cultural que segrega indivíduos. Nesse sentido, Souza (2004)[1]  corrobora ao acrescentar que a prevalência do elitismo histórico-cultural traz consigo a construção social da subcidadania e a naturalização da desigualdade em sociedades periféricas.

É interessante notar que tal fenômeno se manifesta intencionalmente no dualismo escolar. Isso ocorre por meio de exigências rígidas da norma culta sem o desenvolvimento das devidas habilidades dos alunos, o que gera preconceito linguístico e faz da língua um instrumento de exclusão social, desvirtuando sua função comunicativa.

Santos, Mota e Silva (2013)[2] elucidam que a gramática da desigualdade evidencia dimensões econômicas e a má distribuição de renda. Seguindo esse raciocínio, nela estão intrínsecas as dimensões existenciais, as relações sociais e a expressão política. É nesse contexto que ocorre a discrepância de recursos — materiais ou simbólicos —, constituindo as subjetividades daqueles que nela estão inseridos.

Por meio desse elitismo ocorre a divisão de saberes: enquanto escolas de elite focam na formação de lideranças e no pensamento crítico (através de disciplinas como Filosofia e Sociologia), a educação voltada à base da pirâmide social prioriza a formação de mão de obra e a alienação, sem desenvolver consciência política.

Trata-se de uma reprodução de ciclos: o ambiente do aluno determina sua categoria e benefícios, resultando em um subjugamento que desmerece sua bagagem vivencial. Isso agrava os problemas sociais ao naturalizar mazelas e treinar a resiliência dos alunos em prol da conformidade.

Esse elitismo histórico explicita qualidades "inatas" ou meritórias dos favorecidos, ocultando o histórico de riquezas construído sobre a escravidão e o colonialismo. Em contrapartida, promove a desumanização da população periférica e a aceitação da violência policial e da precariedade dos serviços públicos; afinal, esses indivíduos são vistos apenas como "massa de manobra".

Um dado frequentemente omitido no discurso da meritocracia é que a ascensão social para quem está na base da pirâmide alcança menos de 2% da população. Isso reforça a tese da gramática social de que o local de nascimento define, muitas vezes, o destino do indivíduo, independentemente de seu esforço, mantendo a estrutura piramidal intocada.

Espera-se, portanto, que a educação não colabore com esse dualismo deletério, que amplia as diferenças socioculturais, mas que ofereça de forma equânime o poder do discernimento alcançado pela busca do conhecimento e pela autonomia.

 

[1] SOUZA, Jessé. A Gramática Social da Desigualdade Brasileira. Revista Brasileira de Ciências Sociais - Vol. 19 Nº. 54. fevereiro/2004

[2] SANTOS, L. N.; MOTA, A. M. A.; SILVA, M. V. DE O.. A dimensão subjetiva da subcidadania: considerações cobre a desigualdade social Brasileira. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 33, n. 3, p. 700–715, 2013.

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