A educação sob ataque
Por Hélène-Marie Gosselin*
Nova York, maio/2008 - Para Safia Ahmed-jan, uma avó que lutou pela educação no Afeganistão durante três décadas, a escola era um lugar sagrado. Conhecida localmente como SafiaAma-Jan, ou "a tia boa", em Pashto, ela acreditava que o futuro desse pais está em acabar com a violência sem sentido e a discriminação que mantém as meninas como reféns de suas próprias comunidades.
Sob o repressivo regime talibã, ela fez funcionar uma escola clandestina para moças em sua casa na província de Kandahar. Após a queda do regime, trabalhou sem descanso para levar novamente as meninas às escolas. Como diretora provincial para assuntos femininos, colocou todos os dias de sua vida em perigo porque acreditava que o acesso à instrução é um direito humano básico. Em setembro de 2006, pagou o mais alto preço por seus princípios quando foi assassinada na porta de sua casa.
A educação é um pilar do desenvolvimento. A prosperidade e a paz só podem ser alcançadas se nos comprometermos a acabar com injustiça de negar este direito a milhões de crianças que não podem ir à escola em todo o mundo. Estima-se que cerca de 37% dos 72 milhões de crianças que não vão à escola vivem em áreas afetadas por conflitos. Entre as muitas vítimas dos conflitos, a educação raramente ocupa as manchetes dos meios de comunicação, mas os estudantes e os professores estão na primeira linha de batalha e se vêem diante violentos ataques.
No ano passado, a Unesco destacou esta situação no informe “A educação sob ataque”, com a esperança de aumentar a consciência sobre este pouco divulgado problema que afeta países desde o Afeganistão até a Colômbia, da Tailândia ao Nepal, para citar apenas uns poucos. A natureza dos ataques varia muito: colocação de bombas, assassinatos dirigidos, destruição de edifícios de ensino e inclusive o seqüestro de professores e o recrutamento de crianças como soldados. Os motivos desses ataques são também multifacetários: conflitos étnicos, terrorismo, discriminação, exploração ou politização de crenças religiosas ou ideológicas, bem como ódio, ignorância e medo.
A violência nas escolas também prevalece nos chamados países estáveis e prósperos: ameaças, tiroteios e discriminação estão se tornando cada vez mais comuns em países que pareciam ser modelos de respeito dos direitos humanos. “O propósito da educação é substituir uma mente vazia por uma cheia”, disse Malcolm S. Forbes. As escolas não são apenas lugares para ganhar habilidades e conhecimentos. Também são locais para aprender sobre os valores morais, a tolerância e a compreensão entre as diferentes culturas. A cultura modela nossos contextos de referência, nossos modos de pensar e agir e nosso conteúdo educacional.
O informe também reconhece que as crenças religiosas e espirituais refletem coletiva e historicamente a diversidade da experiência humana e são componentes particularmente importantes da educação e do diálogo cultural. Por certo que a diversidade cultural e o diálogo inter-religioso estão despertando maior atenção, e um indicador disso é o informe sobre a Aliança das Civilizações publicado no ano passado pelas Nações Unidas. Outro indicador é a crescente participação dos governos nesta iniciativa. Além disso, é contra este pano de fundo que o Terceiro Fórum da Rede Global de Religiões pelas Crianças (GNRC) acontecerá em Hiroshima, no Japão, entre os dias 24 e 28 de maio.
Este fórum centrará sua atenção no tema "Aprendendo a compartilhar", a fim de melhorar as vidas das crianças em todo o mundo através das lentes de três imperativos éticos: pôr fim à violência contra as crianças, garantir que nenhuma viva na pobreza e proteger o meio ambiente. Nesta oportunidade, um conjunto de ferramentas para a educação ética através do aprendizado inter-religioso será apresentado pelo Conselho Inter-Religioso de Educação Ética para Crianças, com sede em Genebra.
Os líderes mundiais se comprometeram a atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio até 2015 para melhorar as vidas de milhões de pessoas em todo o mundo e garantir uma paz mundial duradoura. Mas, não poderá haver paz sem o apoio ao direito à educação e sem o fim do ciclo vicioso de violência contra nossos institutos de ensino. Poderemos finalmente abrir as portas aos 72 milhões de crianças que não vão à escola, ensinar coexistência pacífica e fazer com que nossas escolas sejam o lugar sagrado imaginado por Safia Ama Jan? (IPS/Envolverde)
* Hélène-Marie Gosselin, diretora do escritório da Unesco nas Nações Unidas.
(Envolverde/IPS)