A Desumanização do Feminino por meio da Masculinidade Tóxica
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
A história da humanidade traz em si o câncer da misoginia. Isso ocorre porque, em nossos primórdios, as mulheres eram vistas como seres inferiorizados, o que é corroborado por Harari (2016)[1] ao afirmar que as mulheres eram indivíduos sem vontade e vistas como propriedades do homem — fosse ele pai, irmão ou marido. Se a mulher não pertencesse a ninguém citado acima, o estupro não seria considerado crime, pois seria visto como uma "moeda perdida" da qual qualquer um poderia fazer uso.
Embora essa época nefasta tenha passado, algumas pessoas continuam enxergando a mulher como um objeto e banalizando o estupro, vendo nele a validação de uma masculinidade doente. Essa mesma masculinidade é ressaltada por meio de uma violência simbólica, como as falas de um deputado federal em 2014, afirmando que uma colega “não merecia [ser estuprada] porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Jamais a estupraria”. Tal declaração foi amplamente divulgada pela mídia, mas não acarretou consequências para quem a proferiu, servindo como um marco de banalização deste ato vil.
Com base nessas falas, a pesquisadora Souza (2017)[2] enfatiza que, mesmo sendo um ato recriminado publicamente, o estupro continua sendo banalizado quando ocorre de forma privada. Sua cultura se dissemina em todos os tipos de ambientes. Vale ressaltar que, em países que resguardam a integridade física da mulher, a tolerância a este crime é zero; todavia, em nosso país, impera o neologismo criado por um universo de misóginos que explicitam o mau-caratismo ao defenderem qualquer justificativa para tal ação — culpando ora a vestimenta da mulher, ora o local onde ela estava, e apelidando o ato de um mero “estupro culposo”.
O estupro é um ato abjeto, praticado por pessoas torpes que não escolhem um perfil específico: hoje a vítima é uma adolescente de 14 anos ou uma jovem de 17; outrora, uma freira idosa de 82 anos. Enfim, é o reflexo de uma sociedade doente, com pessoas de masculinidade fragilizada que buscam a validação de seu poder de dominação.
Esta é uma triste realidade vivenciada por diversas brasileiras. De acordo com dados do Ministério da Justiça e do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, entre 2024 e 2025, o Brasil teve uma média de 227 estupros por dia — o que equivale a um caso a cada 6 minutos. O mais alarmante é perceber que estudos indicam que entre 70% e 90% das vítimas não denunciam o agressor; ou seja, os números conhecidos são apenas a ponta de um gigantesco iceberg. Trata-se de uma das violências mais hediondas, pois traz consigo uma mácula que reverberará por toda a existência da vítima.
Segundo Souza (2017), o crime geralmente é praticado por homens que têm plena consciência do ato e, em seu livre-arbítrio, optam pela desumanização da mulher. Logo, em momento algum o estuprador deve ser visto como um ser "doente" ou um produto de uma sociedade determinista que o impeliu ao crime; para Harari (2018)[3], trata-se de uma ação aética. Souza (2017) acrescenta que, para esses indivíduos, o poder está ligado à sexualidade; nesse contexto, opera-se a culpabilização da vítima e a absolvição do algoz. Um agravante é a observação de Brilhante et al. (2019), quando esclarecem que o estupro virou uma “violência ostentação”.
Apesar de a legislação (Brasil, 2009)[4] constatar que o estupro é um crime contra a liberdade sexual — e o Código Penal não o restringir ao ato não consensual, mas ao ato de “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso” — sua prática é recorrente. Isso se deve à quase impunidade do agressor e ao constrangimento da mulher abusada, que muitas vezes sente que será culpada por ter tido sua dignidade roubada.
O estupro deixa marcas em qualquer vítima, visto que todo ato vem seguido de agressão sexual, gerando traumas físicos e psicológicos. O crime está ligado ao mau-caratismo dos agressores, não se restringindo a classe social ou nível de escolaridade. Uma forma de minimizarmos isso é fazendo com que a educação trabalhe na raiz do problema, por meio da desconstrução de normas de gênero, do ensino sobre o consentimento, da educação sexual e de uma promoção efetiva da igualdade e do respeito.
[1] HARARI, Yuval Noah. Sapiens - Uma Breve História da Humanidade. 18 ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2016.
[2] SOUSA, Renata Floriano de. Cultura do estupro: prática e incitação à violência sexual contra mulheres. Revista Estudos Feministas, v. 25, n. Rev. Estud. Fem., 2017 25(1), p. 9–29, 2017.
[3] HARARI, Yuval Noah. 21 Lições para o Século 21. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
[4] BRASIL. Lei Nº 12.015, de 7 de Agosto de 2009. Código Penal. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12015.htm. Acesso em: 14 jan. 2023.