23/03/2026

A Bíblia no Currículo: Educação ou Controle Social?

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Conhecer a história permite que a sociedade evite os erros de seus antepassados, tornando-a menos vulnerável à manipulação. Um exemplo histórico crucial ocorreu no século XVI, quando Martinho Lutero (1483–1546) rompeu com a Igreja Católica e iniciou a Reforma Protestante. O cerne de sua reforma estava alicerçado na crítica à corrupção, à imoralidade e ao luxo excessivo do clero, bem como à venda de indulgências. Esse movimento fundamentou-se nos "Cinco Solas": Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Sola Gratia (somente a graça), Solus Christus (somente Cristo) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus, e não a figuras humanas).

É interessante observar que, após quase 500 anos, problemas semelhantes persistem. Atualmente, em certas vertentes neopentecostais derivadas daquela Reforma, nota-se o que se pode chamar de "estelionato da fé": pastores comercializando promessas de salvação com valores exorbitantes e templos que ostentam luxo às custas da miséria dos fiéis. Em suma, a história se repete justamente no seio daqueles que, outrora, lutaram contra tais práticas.

O cenário torna-se ainda mais alarmante diante da crescente intolerância contra religiões de matriz afro-brasileira. Se continuarmos nesse ritmo, corremos o risco de repetir tragédias como a Noite de São Bartolomeu[1]. Esquecer a história fragiliza a cidadania, apaga a memória coletiva e favorece o preconceito.

Nesse contexto, a sociedade caminha para um abismo social com propostas como o Projeto de Lei nº 1.658/2025[2], que torna obrigatória a leitura da Bíblia como recurso paradidático. Embora o projeto alegue que o texto complementaria áreas como História, Artes e Filosofia, ele ignora a laicidade do Estado e impõe um livro que, apesar de sua importância cultural, contém imprecisões históricas e contradições morais — como passagens que abordam violência e escravidão.

Enquanto a narrativa bíblica situa o início da humanidade há cerca de 6 mil anos com Adão e Eva, a ciência aponta para um processo evolutivo de milhões de anos. Portanto, a imposição desse material pode incitar a alienação e interpretações equivocadas, transformando indivíduos em massa de manobra que prioriza dogmas em detrimento do conhecimento científico.

Em última análise, a obrigatoriedade do uso da Bíblia amplia o controle social por meio do medo, da culpa e da imposição de normas comportamentais sobre vestimenta, sexualidade e dieta. Tais medidas reafirmam a máxima de Marx sobre a religião como o "ópio do povo". Ao analisarmos a história, percebemos que muitas guerras atuais são travadas por aqueles que, em nome de uma religião que deveria pregar o amor, disseminam o ódio e a intolerância.

 

[1] https://www.youtube.com/watch?v=D3IkHcsx72A

[2]https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=2923851&filename=Avulso%20PL%201658/2025

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