A Bíblia Fora de Contexto: O Uso da Fé para Sabotar Direitos
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
A história sempre foi fundamental para nossa aprendizagem. Ela traz consigo contextos de lutas, sofrimentos e vidas ceifadas na busca por direitos que, hoje, são questionados e até ignorados. Tomemos como exemplo as conquistas femininas: o direito de votar, estudar, ter independência financeira, o acesso ao divórcio e a busca pela equiparação salarial, entre outros.
Os Estados Unidos da América — país que, hipocritamente, se diz modelo de democracia, mas persegue quem diverge de sua política atual — enfrentam uma ofensiva da extrema direita. Influenciadores como o pastor Douglas James Wilson, da Igreja de Cristo, e o streamer extremista Nick Fuentes, fazem campanhas pelo fim da 19ª Emenda da Constituição. Esta emenda, que vigora há mais de um século, garante o voto feminino e foi justamente o que transformou os EUA em uma democracia plena.
O problema reside nesse cenário onde um representante, que se diz conservador, está envolvido no "caso Epstein", enquanto seus eleitores defendem a "família tradicional" tendo-o como ícone. É a verdadeira hipocrisia, a mesma carregada pela extrema direita brasileira ao usar "Deus, pátria e família" como frase de efeito para arrastar milhões de pessoas à mais pura imbecilidade. Nos EUA, cogita-se o "voto familiar" decidido pelo marido: o retorno de uma estrutura patriarcal embasada por uma teologia que prega o medo e a submissão, sob o argumento de que a "feminização da política" atrapalha o progresso.
Um ponto relevante é que, nos Estados Unidos, a maioria das mulheres é democrata, enquanto homens extremistas tendem ao Partido Republicano. No Brasil, pesquisas de Felipe Nunes (publicadas pela BBC News) [1] mostram tendência semelhante: homens votam cada vez mais na direita e mulheres na esquerda. Os dados afirmam que as mulheres são mais progressistas e os homens mais conservadores.
Pode-se afirmar que, mais uma vez, as mulheres se sobressaem na consciência política. Contudo, há uma incoerência representativa: embora formem 51% da população, ocupam apenas entre 17,7% e 18% da Câmara dos Deputados e 19,8% do Senado Federal. O mais triste é que um número considerável dessas representantes vota contra os direitos das próprias mulheres. Elas atuam em pautas conservadoras que se contrapõem a avanços recentes, buscando a revisão de direitos conquistados. Atuam contra a liberdade sexual, combatem o que chamam de "ideologia de gênero", revisam leis de igualdade — como as dez parlamentares que votaram contra a equiparação salarial — e atacam direitos trabalhistas.
Essas parlamentares sabotam direitos femininos por meio de leis e conchavos com políticos extremistas; instigam a misoginia e banalizam o feminicídio. Infelizmente, contam com o auxílio de líderes religiosos que usam a Bíblia para justificar a submissão feminina. Tais figuras integram a "machoesfera", incluindo os chamados "cristãos red pill", que classificam a luta pela igualdade de gênero como algo "provocado pelo diabo". Pregam a submissão ao marido usando o Antigo Testamento para alegar que Deus criou para Adão apenas uma "auxiliar" sem vontade própria.
Diante disso, nota-se o imenso trabalho que nós, professores, temos para combater tamanha desinformação. Precisamos mostrar aos alunos o poder da educação, pois ela propicia o discernimento, alavanca a autonomia intelectual e forma cidadãos questionadores que não aceitam o medo como manipulação. Mesmo que as "escrituras sagradas" digam que a mulher deve ser submissa, o aluno educado saberá que o Antigo Testamento foi escrito entre 1200 a.C. e 400 a.C., em um contexto totalmente diferente do atual. Compreenderá que as mulheres merecem total atenção, respeito, integridade física e dignidade, independentemente do que preguem certos representantes religiosos.
[1] https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgqe015xedyo