10/09/2008

14,3 milhões de brasileiros ainda são analfabetos absolutos

Por Vivian Lobato, do Aprendiz

Ontem, 8 de setembro foi Dia Internacional da Alfabetização. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco), 20% da população mundial ainda é analfabeta. Dados de 2006 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que 14,3 milhões de brasileiros -10,38% da população - se declaram analfabetos absolutos, ou seja, não sabem ler ou escrever um bilhete simples.

Diante dessa realidade, o que era para ser uma data comemorativa, acaba por se tornar um dia de reflexões e debates entorno das políticas públicas e do que está acontecendo com o analfabetismo no Brasil e no mundo.

O Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) divulgou recentemente uma pesquisa que revela que do total de analfabetos funcionais (32%) - aqueles que sabem ler, mas não conseguem interpretar o que está escrito - pelo menos 7% são completamente analfabetos. Os outros 25%, lêem pouco, conseguem realizar algumas contas, mas não desenvolvem tais habilidades durante as atividades do dia-dia.

O especialista em Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Unesco no Brasil, Timothy Ireland, fez uma análise que afirma que a maioria dos analfabetos brasileiros é formada por pessoas nascidas na Região Nordeste, negras, de baixa renda e com idade entre 40 e 45 anos.

De acordo com a professora doutora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em EJA, Maria Clara di Pierro, esses números revelam que as políticas públicas de alfabetização ainda estão muito isoladas e que os programas são quase invisíveis.

“O analfabetismo é apenas mais uma expressão cultural da pobreza e miséria no Brasil. Não se supera o analfabetismo sem antes superar a exclusão. Por isso, o analfabetismo absoluto se concentra nos afro-descendentes, nos nordestinos, nos pobres, na zona rural e nos idosos”, diz Maria Clara.

Para a professora doutora da USP, as políticas públicas devem ser mais integradas. “Não adianta fazer programas de alfabetização isolados de programas de alimentação, habitação e saúde, por exemplo”, ressalta.

Maria Clara conta que apesar da grande expansão do acesso à escola, a regressão do analfabetismo entre adultos é muito pequena. “Está aí o grande problema, o EJA. O processo de alfabetização é secular, a redução é lenta e gradual. O impacto tem sido muito pequeno se observado na escala de um século, pois os programas não chegam a alfabetizar. Os cursos, em geral, são de pouca duração, os educadores mal preparados, a freqüência é muito irregular e não existe uma continuidade. O que resulta em adultos que não chegam a um grau satisfatório de alfabetização”, completa.

Formação dos educadores

O inciso VII do art. 4º da LDB 9394/96 estabelece a necessidade de atenção às características específicas dos trabalhadores matriculados nos cursos noturnos. Observa-se, assim, a exigência de formação específica para atuar na EJA, explicitada pelo Parecer CEB/CNE 11/2000: "Trata-se de uma formação em vista de uma relação pedagógica com sujeitos, trabalhadores ou não, com marcadas experiências vitais que não podem ser ignoradas".

Porém, a EJA no Brasil ainda apresenta uma grande deficiência. Os programas não atendem a demanda, em muitas universidades os cursos de pedagogia não apresentam uma especificação e nem têm aulas destinadas ao assunto, o que acaba gerando uma falta de preparação dos educadores que trabalham nessa área.

“No Brasil existem 65 milhões de pessoas que não finalizaram o Ensino Fundamental. O grande problema dos cursos para EJA é que a oferta é muito pequena, e quem está indo para o programa não são analfabetos absolutos, e sim aqueles que já passaram pela escola, mas tiveram uma formação muito precária, e estão lá para aumentar o grau de escolaridade e porque não existem outros programas”, aponta Maria Clara.

Para Eda Luiz, coordenadora geral do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos do Campo Limpo (CIEJA), o maior problema é que não existe uma especialização específica, apesar de o EJA ser uma matéria obrigatória nas faculdades de pedagogia.

Segundo dados de 2005 do Instituto Nacional de Estudos e

Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), das 612 instituições que oferecem o curso de Pedagogia, apenas 15 (2,45%) têm a habilitação em EJA. De acordo com Eda, esses números ainda são poucos expressivos.

Outro fator apontado pela coordenadora geral do CIEJA, é que a maioria das formas de aprendizagem é vista como uma adaptação, uma forma de superação por não ter aprendido a ler e escrever no período correto. Essas adaptações infelizmente não enxergam o adulto como um sujeito capaz de aprender.

“O grande problema é que se valoriza muito o conhecimento escolar e pouco a experiência de vida. Muitos pensam que o EJA é como um supletivo, ou que o ensino deve estar dentro de uma expectativa infantil e esquecem que o mais importante é acreditar que o jovem adulto aprende, e aprende de forma diferente”, destaca.

Segundo Eda, esses alunos têm uma história de vida, por isso é preciso adquirir outras técnicas de ensino para poder transmitir o conhecimento. “É necessário ter um cuidado especial na seleção de conteúdo, ver o que realmente o aluno necessita, as estratégias precisam ser melhores adaptadas”, explicou.

Maria Clara aponta para outra questão: o educador. Para ela, o problema é que o educador de EJA possui múltiplos perfis.

“Um primeiro grupo é composto por professores habilitados na rede pública, que são muitas vezes alocados para o EJA, ou que participam para completar a jornada de trabalho e renda familiar. Por não ser uma formação específica, os professores não dão contam e tendem a reproduzir com os adultos os métodos infantis”, explica

Outro perfil destacado por Maria Clara é formado por educadores comunitários. “Em geral, eles não possuem magistério e não são formados. Os salários pagos são baixíssimos. Trabalham com EJA, pois possuem uma motivação com a comunidade e a maior parte é voluntária”, completa.

Eda concorda e diz que a maior dificuldade dos educadores é que eles não acreditam no potencial de cada um. Segundo ela, o conhecimento de vida, as expectativas e as escolhas são de extrema importância para ensinar adultos, “trabalhar com temas próximos das realidades ajuda o adulto a se identificar com o conteúdo”.

Para finalizar Maria Clara diz que é preciso ter a consciência que o EJA é um trabalho especifico que precisa ser de qualidade e de professores capacitados. “É necessário ter salários mais altos para incentivar e tornar a área atrativa. As universidades também precisam expandir as matérias relativas ao assunto, pois existe uma ou outra matéria e na maior parte são optativas. Por que se estuda a didática da criança e não se estuda a do adulto? Infelizmente ainda não existe uma preocupação formal e uma especialização na área”.

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Crédito da imagem: Gláucia Cavalcante


(Envolverde/Aprendiz)

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